Regime Militar e a Guerra do Vietnã -Brasil

Regime Militar e a Guerra do Vietnã

No dia 6, a posição do governo brasileiro ganhava primeira página na Folha de São Paulo: o Brasil era solidário aos Estados Unidos e contrário à agressão norte-vietnamita. Como era uma intervenção para auxiliar um país que estava sendo atacado pelo comunismo – o mesmo motivo que os militares haviam alegado para justificar sua ascensão ao poder em 1964 –, a posição do governo brasileiro de apoiar os Estados Unidos foi bastante lógica.

Desde as primeiras notícias do agravamento da crise no Sudeste Asiático, o governo militar brasileiro mostrava-se muito preocupado com a situação, desejando um rápido desfecho, de preferência com os resultados favoráveis aos norte-americanos. O risco não era apenas de um eventual exemplo a grupos de oposição, que ainda poderiam exercer alguma reação dentro do Brasil naquele momento, mas também a pressão dos seus próprios aliados, os Estados Unidos, que queriam a presença de tropas brasileiras no conflito vietnamita.

O presidente Castelo Branco era informado sobre a maioria das operações que eram efetuadas no Vietnã pelo próprio Johnson, por meio do embaixador Lincoln Gordon. Numa carta de Johnson para Castelo Branco (datada de 25/07/65), o então Presidente dos Estados Unidos deixou clara a sua intenção:

Fui informado de que o governo brasileiro já providenciou o envio de café e medicamentos para o Vietnã, através da Cruz Vermelha Brasileira, e tenho certeza de que esses artigos são muito necessários àquele país. Em vista das atuais circunstâncias, porém, parece que se fará necessária ajuda adicional, e estou muito interessado em conhecer seu ponto de vista em relação a que tipo de assistência adicional o governo brasileiro talvez pudesse fornecer.

Humberto de Alencar Castelo Branco

O governo norte-americano condicionou um empréstimo ao Brasil, no valor de 150 milhões de dólares, à presença de tropas brasileiras no Vietnã. A “Diretriz particular e íntima para o ministro Juraci Magalhães”, ministro do Exterior na época, comentando o pedido norte-americano, afirmou:

O caso do Vietnã está repercutindo em cheio sobre o Governo do Brasil. O embaixador Gordon, em sua última conferência comigo, antes do Natal, me transmitiu o pedido do presidente Johnson para o nosso país colaborar no esforço norte-americano. (…) Sugeriu então que enviássemos meios de guerra (tropas terrestres, navios ou aviões), médicos ou mesmo enfermeiros.

Castelo Branco nunca cogitou a idéia de mandar tropas ao Vietnã, sendo esta política justificada pela lógica dos preceitos da Escola Superior de Guerra. Por esses conceitos, o Brasil deveria defender uma área específica, surgindo daí a teoria dos Círculos Concêntricos ou cones, ou seja, áreas estratégicas delimitadas que o Brasil deveria intervir em casos de emergência. O Brasil teria de se preocupar com o “círculo concêntrico” do Atlântico Sul, intervindo (quer por alianças, quer por pressão militar) nos instáveis vizinhos Paraguai, Bolívia, Venezuela, Uruguai e na sempre rival Argentina; o “cone” da margem do Atlântico, preocupando-se com o litoral africano, que assistia a inúmeras lutas de caráter anticolonial (muitas delas defendendo a revolução socialista); e o “cone” norte, barrando a influência da Revolução Cubana (o que explicaria a presença de tropas brasileiras na República Dominicana, em 1965). O papel dos Estados Unidos seria o de auxiliar todos os lugares do mundo onde existisse ameaça comunista, como estavam fazendo no Sudeste Asiático. Dentro dessa lógica, a presença brasileira no Vietnã do Sul seria desnecessária, já que o país já estava cumprindo o seu papel dentro do continente americano.

O governo de Castelo Branco deu apoio ao governo de Lyndon Johnson e ao governo do Vietnã do Sul exportando café e enviando ajuda médica através da Cruz Vermelha do Brasil. Apesar do auxílio brasileiro limitar-se apenas ao envio de café e de medicamentos, os sul-vietnamitas colocaram o nome do país num monumento, com nomes de todos os países que ajudavam o Vietnã do Sul.

Não seria a última vez que o governo dos Estados Unidos iria propor que o Brasil se envolvesse diretamente no Vietnã:

Henry Kissinger, assessor para assuntos de Segurança Nacional, numa carta escrita em nome do presidente Richard Nixon (1969- 1974) e endereçada ao presidente Médici, datada de 16 de julho de 1973, solicitava que o Brasil substituísse o Canadá na comissão de quatro países que tentariam monitorar o tratado de paz celebrado pelas conversações de Paris, assinado em 27 de janeiro do mesmo ano (tratado que deixou a situação igual ao instável acordo de Genebra de 1954), pois “o governo é ideologicamente sólido e o país tem experiência internacional”. O governo Médici recusou a oferta – o Vietnã era um problema “espinhoso” demais para o regime militar brasileiro participar.

A curiosa carta de Richard Nixon