Na produção pernambucana (1945-1970) os principais protagonistas que atuam em Pernambuco a partir de 1951 são os arquitetos Acácio Gil Borsoi (formado em 1949 na FNA) e Delfim Fernandes Amorim (português, formado na Escola do Porto, em 1947). Ambos ensinam na Escola de Belas Artes de Pernambuco e são responsáveis pela formação dos jovens arquitetos que vão atuar nas principais capitais do Nordeste. Nos anos 50, Borsoi influenciado pelos mestres cariocas (Oscar Niemeyer e Lúcio Costa), é o principal expoente em Pernambuco desta linguagem. Delfim Fernandes Amorim, tendo emigrado ainda sob a égide tardia do racionalismo moderno de origem corbusieriana é influenciado pela Arquitetura Moderna Brasileira.
Borsoi e Amorim, em meados dos anos 50, buscam relações mais estreitas com o meio e a cultura locais. Amorim incute nos jovens arquitetos preocupações com a integração ao meio, humanismo, entre outros aspectos de valorização da cultura tradicional do período colonial, reflexo das preocupações do pós-guerra. Os modelos são próximos à arquitetura do período colonial. No final da década, os mestres tomam caminhos distintos e individuais: Acácio Gil Borsoi envereda por expressões brutalistas adequadas ao clima tropical e aos materiais regionais; ao passo que Delfim Amorim desenvolve um verdadeiro tipo de casas unifamiliares com telhados em laje de concreto pouco inclinadas cobertas com telhas cerâmicas (SILVA, 1994). As obras representativas da produção local são manifestações de regionalismos locais e objetos de interesse no panorama do patrimônio nacional? Que critérios utilizar para selecionar o que preservar?
1) as produções regionais semelhanças aos modelos paradigmáticos da Arquitetura Moderna Brasileira ou, 2) as especificidades regionais e contribuições individuais que atestam a riqueza e diversidade da cultura brasileira?
Palavras Chaves: arquitetura moderna brasileira, arquitetura moderna pernambucana; arquitetura e identidade regional.
Reconhecida tardiamente pela crítica como pioneira do contexto nacional, devido à experiência de Luiz Nunes ocorrida nos anos 30, a arquitetura moderna pernambucana do período posterior ainda não foi devidamente reconhecida pela crítica como relevante para o contexto nacional.
O recorte estabelecido para análise (1945-1970) coincide com o período do segundo pós-guerra na Europa, momento de revisão e busca de novos paradigmas no contexto internacional que apontam para a valorização de aspectos regionais em contraposição a padronização racionalista do período entre guerras (MONTANER, 1993; FRAMPTON, 1981; TAFURI, 1976; BENÉVOLO, 1989, etc).
Em Pernambuco, neste período há a redefinição do quadro de arquitetura local devido à vinda de arquitetos estrangeiros e do Sudeste do país, em 1949, o arquiteto italiano de Nápoles e em 1951, o arquiteto carioca, Acácio Gil Borsoi, formado em 1949 na Faculdade Nacional de Arquitetura e o arquiteto português, Delfim Fernandes Amorim, formado na Escola do Porto em 1947.
São os arquitetos Acácio Gil Borsoi e Delfim Fernandes Amorim os principais protagonistas que atuam nos anos 50. Ambos, a partir de 1951, ensinam na Escola de Belas Artes de Pernambuco e são responsáveis pela formação dos jovens arquitetos que vão atuar nas principais capitais do Nordeste (SILVA, 1988).
A exceção das obras documentadas na exposição Brazil Builds (1943), frutos da experiência pioneira da Diretoria de Arquitetura e Urbanismo de autoria de Luiz Nunes, Fernando Saturnino de Britto e José Norberto da Silva (GOODWIN, 1943), a Arquitetura Moderna Pernambucana pouco tem comparecido nas histórias da arquitetura nacional. O período entre 1942-1960, quando a Arquitetura Moderna nacional experimentou o auge de reconhecimento no debate internacional, a Arquitetura Moderna Pernambucana esteve quase ausente da historiografia nacional. (BRUAND,1981; SEGAWA, 1998). A coletânea elaborada pelo arquiteto Henrique Mindlin, Modern Architecture in Brazil, publicada em 1956 desconhece exemplares significativos desta produção (MINDLIN,1956).
Em sua obra antológica, Yves Bruand reserva um lugar secundário para a produção pernambucana entre 1945-1970, reconhece a importância da produção pernambucana para o contexto nacional apenas depois das Escolas Carioca e Paulista. Para Bruand, o Nordeste é uma das regiões influenciadas pela obra de Lúcio Costa e o arquiteto português Delfim Fernandes Amorim (emigrado em 1951 para o Recife), o verdadeiro herdeiro da tradição de Lúcio Costa em Pernambuco, quando conseguiu resolver o problema da laje em concreto com telhas cerâmicas sobre esta. Paradoxalmente, não teria sido Acácio Gil Borsoi, formado na Faculdade Nacional de Arquitetura no Rio de Janeiro, também chegado em 1951 para ensinar na Escola de Belas Artes de Pernambuco, o legítimo herdeiro de Lúcio Costa, uma vez que suas influências são predominantemente de Affonso Eduardo Reidy e Oscar Niemeyer. Para Bruand, o interesse do arquiteto pelas técnicas do passado ocorre apenas na experiência de pré-fabricação da taipa no conjunto Cajueiro Seco (BRUAND,1981.pp.146-7).
E conclui que ainda “é cedo demais para se falar de uma verdadeira escola do Recife, homogênea e original mas é evidente que esta possibilidade não pode ser excluída” (BRUAND, 1981, p.146).
Na tentativa de estabelecer uma relação de continuidade entre o legado de Luiz Nunes e a arquitetura moderna pernambucana dos anos 60, Silva afirma ter sido esta produção influenciada pelos ensinamentos seminais de Aluízio Bezerra Coutinho em 1930. Nesta perspectiva, o legado corbusieriano e racionalista de Luiz Nunes teria continuidade nos ensinamentos de Acácio Gil Borsoi e Delfim Fernandes Amorim, os principais protagonistas desta geração que teriam influenciado as novas gerações de arquitetos nordestinos, estabelecendo um contínuo desde Luiz Nunes, passando pelo racionalista Mário Russo, chegando até os anos 60 e 70 com a obra de Armando Holanda, em seu “Roteiro para Construir no Nordeste” em 1976. Para Silva, as influências de Borsoi e Amorim teriam sido determinantes para a arquitetura moderna pernambucana, a partir de 1951, e durante as duas décadas seguintes na formação dos arquitetos que atuaram em todo o Nordeste brasileiro (SILVA, 1988).
Na tentativa de mostrar a diversidade de nossa arquitetura moderna brasileira, Segawa enfatiza a ocorrência de expressões locais da arquitetura do Sudeste do país e a ocorrência de outras modernidades regionais fruto da atuação de arquitetos peregrinos, nômades e migrantes.
Estes teriam difundido os ensinamentos da ENBA no Nordeste, Centro-Oeste e Sul do país e teriam atuado como definidores de linhas regionais (SEGAWA, 1998, pp.131-2).
Em Pernambuco, as experiências locais foram muito relevantes a partir de fins dos anos 50 e nos anos 60 quando refletem a definição de uma identidade regional, de uma possível forma de fazer arquitetura local. Para Silva, ”
trata-se de uma linha pernambucana de arquitetura (uma derivação com linguagem própria da linha carioca, que vai formar algumas gerações de arquitetos) que hoje atuam por toda a região” (SILVA,apud.in: SEGAWA,1998,131-2).
Desde os primeiros textos até os mais recentes estudos, os autores recorrem na tentativa de identificar aspectos genuínos que caracterizem a produção pernambucana como diferenciada da produção brasileira de arquitetura moderna.
As características mais apontadas da pernambucanidade arquitetônica são oriundas de certas recorrências de agenciamento espacial e de soluções formais nas edificações no Estado. No que estas soluções respeitam as condições climáticas e a utilização de materiais locais, como a criação de beirais, elementos vazados, etc. Mais representativo é o argumento de Luiz Amorim quanto à questão do agenciamento interno e do esquema dos três setores funcionais que, de fato, tornou-se marca registrada das soluções locais, cujas experiências mais ricas se dão a partir da chegada dos arquitetos Delfim Fernandes Amorim e Acácio Gil Borsoi. Para Luiz Amorim, a Escola do Recife, calcada em um contínuo que viria desde Luiz Nunes até os anos 70 com as obras de Armando Holanda, se caracterizaria pela existência de três paradigmas: o dos setores funcionais, o ambiental e o da forma, este último, definido entre a racionalidade construtiva e o acervo histórico nacional (AMORIM,2001).

I) Características, Especifi cidades e Recortes Temporais da Produção Pernambucana entre 1945-1970

No intuito de avaliar a produção moderna pernambucana e suas especificidades, recorremos a classificação das obras segundo suas características (estéticas, funcionais, de linguagem, técnico-construtivas, entre outras), identificamos três fases distintas desta produção e seus exemplares mais significativos que refletem o trabalho do grupo de arquitetos que atuaram em Pernambuco.

1) A Influência da Esco la Carioca entre 1945-1958

Nos anos 50, a produção em questão caracteriza-se predominantemente pelas influências dos ensinamentos dos mestres cariocas, principalmente Oscar Niemeyer e Lúcio Costa, cujas obras são os principais paradigmas de inspiração e influenciaram a quase totalidade dos projetos modernos desenvolvidos em Pernambuco. No entanto ainda há inúmeros projetos tradicionais como neocoloniais tardios e ecletismos historicistas. Neste universo, o principal expoente deste período é o arquiteto Acácio Gil Borsoi. Tendo chegado em 1951 para ensinar na Escola de Belas Artes, a partir de 1953 faz inúmeros projetos. Soube com maestria expressar a linguagem moderna brasileira. Ao contrário de Borsoi, que tivera contato direto com o grupo carioca e com arquitetura moderna brasileira, o arquiteto português Delfim Fernandes Amorim, chega ao Recife ainda sob a égide tardia do racionalismo moderno de origem cor busieriana, quando é influenciado pela Arquitetura Moderna Brasileira e Mário Russo, ligado ao racionalismo italiano de viés clássico. Outros como o químico de formação José Norberto Silva remanescente da experiência com Luiz Nunes; Augusto Reynaldo que apesar de não ser arquiteto trabalhou como desenhista com Heitor Maia Filho, forma-se arquiteto no Curso de Arquitetura da Universidade do Recife e Hélio Feijó, remanescente da experiência de Luiz Nunes, projetista e pintor, projeta residências modernas inspiradas na Escola Carioca. Estes arquitetos e projetistas divulgam os ensinamentos da Escola Carioca e da Arquitetura Brasileira aliado às obras de modernas já construídas em Pernambuco como o edifício residencial para o IAPI de Carlos Ferreira, a Secretaria da Fazenda de Saturnino de Britto, e a clínica de Arthur Moura que expressa a liberdade de Oscar Niemeyer na Pampulha, entre outras obras pioneiras construídas em Pernambuco.
As obras de arquitetos formados na Escola de Arquitetura local: Heitor Maia Neto, Maurício Castro e Everaldo Gadelha (formados em 1952 e alunos de Mário Russo), Waldecy Fernandes Pinto (formado em 1954, aluno e desenhista de Borsoi), Reginaldo Esteves e Marcos Domingues da Silva (formados em 1954 e discípulos dos mestres), seguem os ensinamentos do Sudeste do país. Esta produção conta também exemplares de arquitetos do Sudeste do país que atuaram de forma pontual em Pernambuco: Oscar Niemeyer, Álvaro Vital Brazil, José Bina Fonyat, Sérgio Bernardes, Henrique Mindlin entre outros.

Alguns exemplares são significativos: trazem soluções de conciliação entre linguagem carioca e o Nordeste brasileiro, seja nas soluções de planta ou aspectos funcionais, nos materiais locais, na adequação ao clima ou na integração ao meio. As residências Lisanel de Melo Motta (1953), Luciano Costa Júnior (1954), Heitor Maia Neto (1955), a casa do arquiteto Acácio Gil Borsoi (1955), Isnard Castro e Silva (1958), Miguel Vita (1959) também no âmbito nacional, pois representam a expressão da cultura moderna nacional e sua adaptação ao clima e materiais locais.

A Busca da Identidade Regional e a Proximidade com a Arquitetura Rural do Período Colonial entre 1956-1967

Ambos arquitetos (Borsoi e Amorim) vão a partir de meados dos anos 50 apontar para uma revisão em busca de relações mais estreitas com o meio e a cultura local. Amorim incute nos jovens arquitetos preocupações com a integração ao meio, humanismo, entre outros aspecto s de valorização da cultura tradicional do período colonial, reflexo das preocupações do pós-guerra e do debate português nos anos 50 (TOSTÕES, 1997). Ao passo que Borsoi busca uma relação mais estreita ao legado de Lúcio Costa e da nossa arquitetura tradicional do período colonial. Os modelos resultantes se aproximam à arquitetura do período colonial.
Entre 1956-1967, os projetos residenciais buscam relações estreitas com a arquitetura rural do período colonial: telhados cerâmicos em 4 águas, beirais generosos, revestimentos em massa caiada, varandas, esquadrias em madeira com venezianas, aberturas regulares, treliças em madeira, volumes com predominância de cheios sobre os vazios. O resultado formal se aproxima a idéia da casa-grande dos engenhos com seus generosos beirais, suas superfícies lisas pintadas na cor branca e suas varadas e terraços.
Esta atitude iniciada por Borsoi entre aproximadamente 1954-1956 é seguida por outros arquitetos pernambucanos tendo se popularizado a partir de 1964. Os primeiros exemplares projetados por iniciativa de Acácio Gil Borsoi refletem os ensinamentos de Lúcio Costa, as relações entre a Residência Dulce Mattos, projetada por Borsoi em 1958 e a Residência Hungria Machado projetada por Lúcio Costa no começo dos anos 40, são evidentes. Esta busca do regional despertou também o interesse por elementos da nossa arquitetura religiosa do período colonial. O resultado formal é
extremamente tradicional, esta tendência permaneceu na obra dos arquitetos modernos formados na Escola de Arquitetura local.

No final da década de 50, os mestres tomam caminhos distintos e individuais: Acácio Gil Borsoi envereda por expressões brutalistas adequadas ao clima tropical e aos materiais regionais, ao passo que Delfim Fernandes Amorim desenvolve um ver dadeiro tipo de casas unifamiliares com telhados em laje de concreto pouco inclinadas cobertas com telhas cerâmicas (SILVA, 1994).
Ente 1958 e 1960 Delfim Amorim desenvolve o tipo de casa de Amorim (SILVA,1994; AMORIM,2001) Portanto, a partir de 1960, a busca da expressão regional nos programas residências divide-se em duas vertentes ambas com inspiração na casa rural do período colonial: 1) o bloco retangular com telhados cerâmicos em 4 águas, generosos beirais,aberturas regulares, varandas e predominância de cheios sobre vazios 2) o tipo de Amorim criado por Delfim Fernandes Amorim, entre 1958 e 1960, (SILVA,1994; AMORIM,2001) sua marca registrada na arquitetura de Pernambuco, quando alia ainda que involuntariamente, a leveza plástica da arquitetura moderna brasileira a sobriedade das casas rurais do passado colonial luso-brasileiro: “
os telhados se reduzem a lajes de concreto armado com pequena inclinação geralmente duas águas, apoiadas em paredes estruturais de alvenarias de tijolos ou em curtos pontaletes de ferro (…) sobre as lajes de coberta, telhas cerâmicas tipo canal formando um colchão de ar para atenuar os rigores do clima (…) uso de azulejos policromados para revestimento de trechos de fachadas externas, portas e janelas em madeira”

Alguns exemplares são representativos deste momento de integração ao meio rural: Dulce Mattos (1958); Claudino (1956); Cairutas (1962); Reginaldo Esteves (1959); José Vale Júnior (1959-1961); Carlos Augusto Fernandes (1963); Leão Masur (1966).
O tipo de Amorim é seguido pelos arquitetos pernambucanos: Acácio Gil Borsoi, Vital Pessoa de Melo, Reginaldo Esteves, Waldecy Fernandes Pinto, Marcos Domingues da Silva, Wandenkolk Tinoco e outros projetam exemplares das casas de Amorim, que se tornou uma marca registrada da arquitetura pernambucana entre aproximadamente 1962-1966. Concomitantemente, também projetam residências inspiradas na arquitetura rural do período colonial. O próprio Amorim também projetou estes exemplares com inspiração na arquitetura rural do período colonial com resultados extremamente tradicionais no início dos anos 60.
Portanto, o tipo inspirado na casa rural do período colonial disseminou-se em Recife ganhando sua versão regional, mais leve, com varandas, amplos telhados e generosos beirais. Em meados dos anos 60, esta tendência transforma-se quase em uma moda, inúmeros arquitetos entre eles Waldecy Fernandes Pinto, Jarbas Guimarães, Reginaldo Esteves, Vital Pessoa de Melo e outros buscam elementos da arquitetura tradicional em exemplares que se aproximam à arquitetura das casas-grandes dos engenhos, a simplicidade da arquitetura do meio rural e da construção do período do colonial. A partir de 1967 aproximadamente buscam também elementos da arquitetura religiosa óculos, seteiras e torres sineiras de igrejas incorporados à arquitetura residencial. O fato é que estes exemplares são extremamente tradicionais se comparados as casa se Amorim no início da década, é quase um retrocesso na arquitetura obra residencial pernambucana.
Em meados dos anos 60, alguns arquitetos pernambucanos buscam novos paradigmas e uma relação mais próxima ao brutalismo internacional.

Novos Paradigmas: o Brutalismo Internacional e Sua Versão Pernambucana, 1960-1970.

Em 1960, quando a arquitetura brasileira declina no panorama internacional, os arquitetos buscam novas referências e paradigmas internacionais.
Concomitantemente ao tradicionalismo da arquitetura residencial, Acácio Gil Borsoi introduz elementos de expressão brutalista em suas obras, fruto do contato direto com a arquitetura inglesa, escandinava e americana.
Os edifícios Santo Antônio (1960) e Guajirú (1962) são pioneiros nesta linguagem. Delfim Fernandes Amorim em conjunto com Marcos Domingues, Florismundo Lins e Carlos Corrêa Lima também incorpora elementos desta linguagem no Seminário Regional do Nordeste (1962). Quando alia a estética brutalista à liberdade formal da Arquitetura Brasileira. Este conjunto de forma sinuosa tem nítidas relações com o conjunto Pedregulho de Affonso Eduardo Reidy. A equipe trabalhou com os materiais brutos em sua forma natural, o tijolo aparente nos elementos de vedação e nas superfícies curvas do volume sinuoso, o concreto bruto foi utilizado em estruturas portantes, elementos pré-fabricados em concreto foram utilizados para proteção da insolação.

Em meados da década de 60, a arquitetura residencial incorpora elementos do brutalismo internacional com as iniciativas de Acácio Gil Borsoi (1964) e das novas gerações (1968): Glauco Campello, Armando Holanda, Wandenkolk Walter Tinoco, Hélvio Polito, Vital Pessoa de Melo, Frank Svenson e Marcos Domingues da Silva, entre outros.
Acácio Gil Borsoi soube com maestria explorar a linguagem brutalista. Os projetos do arquiteto estão entre os mais representativos desta tendência que influenciou as novas gerações de arquitetos pernambucanos no fim dos anos 60. Sua linguagem brutalista ganhou dimensões individuais, utiliza o tijolo aparente e o concreto bruto, como elementos expressivos, tal como os brutalistas e a arquitetura do segundo pós-guerra. O arquiteto concilia preocupações com o clima tropical aos materiais e a busca de expressões rudes e primitivas do brutalismo internacional presentes na obra tardia de Le Corbusier. Procedimentos que se adeqüam perfeitamente aos padrões construtivos artesanais do meio pernambucano.
Tanto na obra de Acácio Gil Borsoi como na obra tardia de Delfim Amorim evidenciam-se as expressões brutalistas: os jogos de volumes e recortes são explorados segundo diferentes funções, assim como as cobertas extremamente inclinadas contrastando com as cobertas horizontais, a busca de expressividade nos elementos estruturais e construtivos tais como pilares, vigas, gárgulas, caixas d’água, plasticamente explorados através do uso do concreto aparente; a utilização dos materiais rústicos e naturais tais como o concreto aparente, o tijolo cerâmico, a madeira, a pedra, superfície s revestidas de azulejos ou revestimentos cerâmicos, pastilhas. O respeito aos rigores do clima tropical está presente na utilização dos peitoris e bandeiras ventiladas, de esquadrias com venezianas em madeira rústica, de elementos vazados sabiamente explorados e de grandes beirais. Os telhados bruscamente inclinados cobertos com telhados cerâmicas ou de fibro-cimento contrastam com as lajes planas em concreto armado ou com as cobertas planas em estruturas de madeira com telhas de cimento amianto.
As novas gerações de arquitetos pernambucanos também exploram as aberturas zenitais e clarabóias, dos troncos de cones que se sobressaem nas cobertas, das escadas que sacam e volumes em concreto bruto, das cobertas extremamente inclinadas de perfil hiperbólico, a exemplo da obra de Frank Svenson, Marcos Domingues da Silva, Alex Lomachinsky e Emanuel Lins. Outros expressam preocupações mais evidentes com a racionalização e a padronização dos canteiros a exemplo da obra conjunta de Glauco Campello e Armando Holanda cujos projetos evidenciam nítidas preocupações com a pré-fabricação dos elementos construtivos utilizando soluções padronizadas e repetidas.
Algumas residências são exemplares significativos da tendência brutalista: Alfredo Pereira Correia (1969); Miguel Doherty (1969); José Carlos Penna (1965); Murilo Martins (1970); Vital Pessoa de Melo (1968); Antônio Queiroz Galvão (1969); Paulo Meirelles (1968); José da Silva Rodrigues (1970). Raros são os exemplares que conciliam a aproximação ao meio regional com a linguagem
brutalista, a exemplo da residência José Carlos Penna, projetada em 1965 e premiada no concurso do IAB-PE em 1969.

II) Identidade Nacional ou Regional?

Em nossas pesquisas constatamos a riqueza da produção pernambucana e a mudança de estilos e paradigmas ao longo do período em questão. A mudança do paradigma nacional para aquele internacional.

As obras representativas da produção local são manifestações de regionalismos locais e, portanto, passíveis de serem objetos de interesse no panorama do patrimônio nacional? Que critérios devemos utilizar para selecionar o que preservar?
1)as obras que tem identidade com a Arquitetura Moderna Brasileira, ou 2) as especificidades locais e, portanto, diferentes desta produção?
As produções regionais são importantes no âmbito nacional devido às suas semelhanças aos modelos paradigmáticos da Arquitetura Moderna Brasileira, a exemplo da obra de Oscar Niemeyer ou, por que refletem aspectos regionais e identidades locais frutos de contribuições individuais? Devemos preservar as obras que tem identidade moderna brasileira ou aquelas que, justamente por serem exceções, atestam a riqueza e diversidade da cultura brasileira.
Dos projetos levantados, aqueles mais significativos ao nosso ver são aqueles que expressam aspectos genuínos de identidade nacional e regional: a primeira obra inspirada pela Escola Carioca de Acácio Gil Borsoi; as casas de Amorim; as casas de inspiração rural do período colonial e a obra brutalista de Acácio Gil Borsoi, uma vez que este arquiteto conseguiu conciliar a linguagem brutalista a aspectos genuinamente regionais. Estes exemplares urgem de atitudes mais enfáticas no campo da preservação uma vez são importantes documentos de nossa identidade regional.

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