A Guerra dos Bárbaros, em sentido amplo, se refere aos conflitos entre grupos indígenas que habitavam o sertão do território do atual nordeste brasileiro e as forças colonizadoras portuguesas que tinham o objetivo de conquistar aquelas terras de forma a permitir a utilização produtiva da pecuária na região. Estes conflitos podem ser divididos em dois episódios: as guerras no recôncavo e a Guerra do Açu, que juntas remetem a mais de 70 anos de duração, de 1650 a, pelo menos, 1720. Tais conflitos eram citados na documentação coeva como a “guerra aos bárbaros” e referidos pela historiografia como a Guerra dos Bárbaros. Em muitos casos esta nomenclatura é citada referindo-se unicamente à Guerra do Açu, em outras englobando também as guerras do recôncavo baiano.bar

A Guerra dos Bárbaros foi um conflito entre vários grupos indígenas do grupo lingüístico macro-jê unidos naquela que ficou conhecida como Confederação Cariri1 e as forças colonizadoras portuguesas na América. Este conflito durou mais de meio século e foi responsável pelo completo extermínio de algumas tribos indígenas e pelo completo desmantelamento das demais envolvidas. Representou a conquista do sertão nordestino brasileiro para o domínio português e o seu uso efetivo na criação de gado, de fundamental importância para a subsistência da sociedade açucareira. Para a consolidação desta conquista foram manejados efetivos de caráter militar de todo o nordeste brasileiro, além da ajuda de contigentes expressivos de outras regiões. Foram formadas alianças com tribos tupis que permitiram multiplicar o efetivo da força de ataque portuguesa. A repressão ao quilombo dos Palmares foi adiada para que seus combatentes pudessem auxiliar no ataque aos indígenas “bárbaros” que destruíam milhares e milhares de cabeças de gado e centenas de colonos e ameaçavam o centro da capitania do Rio Grande,natal.

Neste trabalho que aqui apresentamos, tratamos apenas de um período desta longa guerra, a saber o período mais intenso da chamada Guerra do Açu, mais especificamente aquele período entre a intensificação ocorrida nos levantes indígenas por volta de 1687 e o tratado de paz entre janduís e portugueses em 1692. Esta limitação cronológica corresponde à necessidade de não alargar demasiadamente a narrativa histórica, uma vez que a mesma foi feita com grande competência por Maria Idalina da Cruz Pires2 e por Pedro Puntoni3 em suas teses respectivamente de mestrado e doutorado. Desta forma, e considerando os limites de um trabalho de monografia de graduação, acreditamos que os elementos contidos nos relacionamentos sociais e seus conflitos referentes a este período são suficientes para a análise e compreensão dos mecanismos utilizados particularmente no processo de conquista desta região por parte dos portugueses assim como aqueles utilizados pelos “gentios bárbaros” em seu processo de resistência.

Com sua reduzida participação na historiografia nacional e sua quase ausência nos livros e manuais escolares, a Guerra dos Bárbaros só recentemente, através das teses citadas, teve a abordagem merecida, mas longa distância ainda a separa do conhecimento leigo e inclusive do especializado, afinal não é incomum o desconhecimento do episódio por parte de profissionais especializados em história do Brasil. Este quadro, reflete mais especificamente todo o descaso com que é tratada a história indígena do Brasil, que fora dos núcleos especializados tem pouquíssimo espaço, o que não é condizente com o papel central que os povos autóctones exerceram na história brasileira. E é importante ressaltar que este descaso vai além da questão ideológica, uma vez que mesmo nas obras que privilegiam eventos marginais à história oficial, o espaço destinado à “Guerra dos Bárbaros” é nulo ou diminuto se comparado a outros episódios de resistência.

No caso em questão, há realmente uma enorme carência de documentos, uma vez que pouco se escreveu sobre os tapuias, sendo objeto preferencial da abordagem dos relatos colonizadores as tribos tupis que em geral se aliavam e eram aldeadas pelos missionários. E a falta de documentos escritos pelos indíos também é de se lamentar, porém não devemos nos imobilizar por tais motivos. Através das fontes existentes a história da resistência deve ser construída se desejamos realmente compreender o Brasil.

Considerando todos os limites existentes em um trabalho de monografia de graduação esperamos com este estudo estar contribuindo para a discussão de alguns elementos que entendemos fundamentais para a compreensão da resistência indígena e do processo de conquista português, em especial o papel do bandeirante paulista na conquista da região em questão, e das estratégias de sobrevivência dos janduís, aqueles que eram tidos pelos portugueses como os mais temíveis naquela que, na opinião de Affonso de Escragnolle Taunay, foi “guerra índia a mais séria talvez ocorrida no Brasil”.

 QUEM ERAM BÁRBAROS ?
A “barbárie”

Se o objeto deste trabalho é o conflito que, apesar de possuir várias denominações, é mais conhecido como “Guerra dos Bárbaros”, cabe aqui tentar delimitar o conceito de “barbárie” e suas implicações na nomenclatura do evento, possibilitando, assim, a compreensão de como ele era aplicado no contexto em questão. O conflito que envolve os colonizadores e seus agentes por um lado e a aliança indígena que ficaria conhecida como Confederação Cariri, e que englobava, entre outros, janduís, paiacus, caripus, icós, caratiús e cariris teve início no final do século XVII e durou até, pelo menos, a segunda década do século XVIII.

Desde de o início da colonização portuguesa na América, os índios que ocupavam o território que estava sendo conquistado pelos portugueses foram constantemente denominados de bárbaros numa classificação claramente etnocêntrica, que levava em conta sua aparente falta de organização social, religiosa e política, e principalmente seus hábitos antropofágicos. Estes, a princípio, foram vistos como costumes bestiais e selvagens, o que lhes garantia o adjetivo denegridor, sem que se levasse em conta seu contexto cultural. Tudo isto serviria de pretexto para a missão evangelizadora e civilizadora empreendida pelos colonizadores e missionários, onde se buscava principalmente a conversão dos nativos aos valores da cultura ocidental.

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O termo “bárbaro” surgiu na Grécia Antiga, onde ele era aplicado basicamente para designar os demais povos que não compartilhavam da cultura helênica. Aristóteles fez amplo uso do conceito em sua tentativa de justificar a “escravidão natural”. Embora a discussão a respeito da bárbárie seja típica do século XVIII, no período da Ilustração, o termo já permeava os discursos do século XVII com fins legitimadores. Fica claro, assim, de onde se trazia a retórica que justificava a escravidão dos indígenas e de que forma era associativo o conceito imposto aos indígenas que não se alinhavam com a proposta colonizadora portuguesa e o interesse em mão-de-obra dos colonos. Aristóteles considerava os bárbaros como seres humanos inferiores, naturalmente destinados a obedecer:

“Há ainda, por ação da natureza e para a manutenção das espécies, um ser que manda e outro que obedece. Pois aquele que tem inteligência capaz de prever tem, de modo natural, autoridade e poder de chefe; aquele que não tem senão a força física para executar, deve, obrigatoriamente, obedecer e servir – e, portanto, o interesse do amo é o mesmo do servo. (…) Os poetas escreveram: ‘Os gregos têm o direito de mandar nos bárbaros’ como se a natureza fizesse distinção entre bárbaro e escravo. (…) Existem, na espécie humana, seres tão inferiores a outros quanto o corpo o é em relação à alma, ou a besta ao homem; são aqueles para os quais a utilização da força física é o melhor que deles se consegue. Segundo nossos princípios, esses indivíduos são destinados, por natureza, à escravidão (…) Deste modo, entre os homens, uns são livres, outros escravos; para eles é proveitoso e justo viver como servos.”

E os colonos necessitavam de mão-de-obra para seus engenhos, suas lavouras, seus serviços domésticos, enfim, para os servir. O discurso aristotélico, atravessaria os séculos e encontraria como seu maior eco no período colonial das Américas os textos de Juan Ginés de Sepúlveda, que foi o contraponto de Bartolomeu de Las Casas no debate a respeito da conversão indígena.8 Sepúlveda baseava seus argumentos na teoria de Aristóteles, e defendia a “escravidão natural”:

“É por isso que as feras são domadas e submetidas ao império do homem. Por esta razão, o homem manda na mulher, o adulto, na criança, o pai, no filho: isto quer dizer que os mais poderosos e os perfeitos dominam os mais fracos e os mais imperfeitos. Constata-se esta mesma situação entre os homens; pois há os que, por natureza, são senhores e outros que, por natureza, são servos.

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