História da Geografia do Esporte

A geografia do esporte consiste essencialmente no estudo da dimensão espacial da atividade esportiva. Sua fundamentação parte do pressuposto de que para se realizar, a prática esportiva necessita de lugares apropriados, criados de acordo com os princípios, regras e aspirações de cada modalidade. Tais lugares podem ser denominados de instalações esportivas. São estádios, ginásios, autódromos, pistas de esqui, velódromos, campos de golfe, hipódromos e diversos outros equipamentos que, no decorrer do século XX, se multiplicaram de forma inédita e passam a formar definitivamente a paisagem urbana mundial. Pressupõe-se também que os eventos esportivos, enquanto espetáculo, gerem volumosos fluxos, articulando uma área de influência em torno das cidades onde se realizam. Como qualquer outra ramificação do saber geográfico, a geografia dos esportes se preocupa em primeiro lugar com a distribuição espacial do fenômeno esportivo. O estudo sistemático de tal distribuição revela importantes aspectos econômicos, históricos, sócio-culturais e políticos, além daqueles de ordem climática. Por fim, a geografia dos esportes reúne um conjunto de informações e análises que podem e devem municiar o planejamento urbano e regional, estabelecendo um zoneamento esportivo, definindo áreas com suas potencialidades e carências específicas. Considerando-se o fato deste ramo de estudos ser muito recente no Brasil, a memória e o inventário da geografia do esporte são aqui descritas e resumidas por um quadro evolutivo de alcance internacional.

Origens:
Antes do surgimento da geografia dos esportes como ramo de investigação, alguns raros trabalhos geográficos incorporaram, de alguma forma, o fenômeno esportivo. No final do século XIX, Elisée Reclus em obra clássica (Geographie Universelle) dedicou um parágrafo ao cricket como elemento cultural constante na paisagem inglesa. Em 1919, a National Geographic Magazine publicava um artigo sobre as relações causais entre as condições ambientais (clima, relevo e vegetação, basicamente) e os jogos e esportes praticados por povos de diferentes regiões do planeta. Mais tarde, Albert Demangeon, em seu livro L’Empire Britannique (1938), sintetizou em quatro páginas o papel dos esportes na expansão mundial do imperialismo inglês. Somente na década de 1960, no bojo do avanço da abordagem geográfica em torno do turismo e da recreação, é que surge propriamente uma geografia dos esportes.

Décadas de 1940 e 1950: No Brasil, o geógrafo francês Pierre Monbeig constituiu um caso de pioneirismo no campo da geografia do esporte. Integrante do grupo que fundou o primeiro departamento de geografia em estudos acadêmicos no país, na recém-criada Universidade de São Paulo, várias vezes neste período citou o futebol ao estudar as intensas transformações da paisagem urbana paulista, como por exemplo em seu artigo “Aspectos geográficos do crescimento de São Paulo”. Não obstante a contribuição e pista deixadas por tão eminente profissional, o futebol e todo o universo esportivo permaneceram ausentes na imaginação geográfica brasileira até o final do século XX.

1963:
Edward Shaw publica nos Estados Unidos o pequeno artigo Geography and baseball, considerado internacionalmente como o primeiro trabalho em geografia dos esportes. O autor observou inúmeras partidas de beisebol, sob as mais diversas condições atmosféricas e edáficas (tipo e estado do solo). Seu objetivo era verificar em que medida variações de temperatura, umidade, ventos e condição da superfície dos solos poderiam condicionar o desempenho dos jogadores. Trata-se de uma iniciativa que podemos inserir plenamente no âmbito da corrente determinista em geografia, aquela que se preocupa com a influência decisiva dos fatores ambientais sobre a atividade humana, corrente esta que há décadas caiu em obsolescência.

1969: Na Oklahoma State University, o geógrafo norte-americano John Rooney dá início ao que em breve se tornaria um profícuo grupo de estudos em torno da geografia dos esportes. Trata-se de uma abordagem completamente distinta da supracitada, preocupada com a distribuição geográfica do fenômeno esportivo, em busca dos padrões espaciais e das leis que governam tal distribuição. Tal iniciativa se insere na corrente teórica neopositivista da “geografia pragmática”.

1974: Rooney publica o primeiro livro no ramo, A Geography of American Sports, não apenas analisando a distribuição do fenômeno esportivo nos EUA, mas definindo as bases da abordagem geográfica dos esportes e seu leque temático: origens e difusão espacial dos esportes; regiões esportivas; variações espaciais no esporte; paisagem esportiva e impactos locais do evento esportivo.

1976:
Em Keele University, Inglaterra, John Bale, que viria a se tornar o maior expoente da geografia dos esportes em âmbito mundial, publica seu primeiro trabalho, ainda não propriamente enquadrado no ramo: uma tentativa de sugerir o futebol no ensino de geografia. Dois anos mais tarde, publica artigo sobre a difusão espacial do profissionalismo no futebol inglês.

Década de 1980:
Nos encontros anuais da Association of American Geographers, a temática esportiva passa a comparecer regularmente, consolidando a geografia dos esportes nos EUA. Na Europa, começam os estudos neste campo. O Brasil, como toda a América Latina, permanece alheio a este movimento.

1982:
Jorge Gaspar publica o primeiro trabalho em Geografia dos Esportes em Portugal.

1987: O grupo de Oklahoma lança o primeiro número da revista Sport Place – An International Magazine of Sports Geography, ainda hoje considerada o único periódico acadêmico dedicado à geografia dos esportes. Neste mesmo ano, os geógrafos franceses lançam seu primeiro atlas nacional dos esportes, de Mathieu e Praicheux. Agrupando algumas dezenas de modalidades mais importantes, mapeam basicamente a área de influência das ligas e competições e a origem dos atletas.

1989:
John Bale publica o livro Sports Geography, hoje considerado o maior e mais preciso compêndio na área.

Década de 1990: Sobretudo a partir do esforço de John Bale, a geografia dos esportes incorpora novas abordagens teóricas, como o materialismo dialético e a perspectiva humanística que envolve subjetividade e percepção dos espaços (resgatando a contribuição de Armand Fremont, 1980). Países da Europa e América do Norte começam a introduzir, nos livros escolares, aspectos da geografia dos esportes. Surgem cursos de graduação como Geography and Sports Science, na University of Birmingham, Inglaterra. No Brasil, surgem as primeiras monografias de graduação e primeiros artigos no ramo.

1991: Num esforço de amplo alcance, Cuba lança o Atlas de la Cultura Física y del Deporte, reunindo um número inédito de informações para este gênero.

1992: Rooney e Pillsbury lançam o Atlas Norte-Americano dos Esportes, o mais completo e ambicioso projeto no gênero em todo o mundo.

1993: O atlas nacional da Suécia, de âmbito escolar, inclui mapas sobre esportes.

1996:
Na Espanha, o geógrafo catalão F. Muñoz publica estudo pioneiro sobre o “urbanismo olímpico”, sistematizando as diversas experiências de planejamento urbano em cidades que sediaram Jogos Olímpicos.

1997:
O geógrafo francês Jean-Pierre Augustin adentra pelo universo recente e difuso dos esportes de aventura, apontando sua “territorialidade incerta”, base de vários estudos posteriores.

1998: O geógrafo francês Löic Ravenel publica La geografia du football en France, um dos raros estudos sistemáticos em geografia do futebol. Pascal Boniface, dando prosseguimento a Jean-Pierre Augustin (1995), aprimora o estudo da dimensão geopolítica dos esportes. No Brasil, publica-se o primeiro artigo em geografia dos esportes, de autoria de Gilmar Mascarenhas, sobre a difusão espacial do futebol no Brasil. 2001 Primeira tese de doutorado em Geografia dos Esportes no Brasil, na Universidade de São Paulo, sobre o advento do futebol no Brasil, de autoria de Gilmar Mascarenhas.

2002: Em caráter eletivo, é oferecida a disciplina Geografia dos Esportes, no departamento de Geografia da Universidade do Estado do RJ-UERJ, em caráter pioneiro no Brasil.

2003:
Tese de livre docência em Geografia Humana de Odette Seabra, na USP, “Urbanização e fragmentação: cotidiano e vida na metamorfose da cidade em metrópole”, dedica um capítulo ao futebol de várzea.

2005:
Lançamento do Atlas do Esporte no Brasil, um marco fundamental. Superando todas as expectativas, o Atlas brasileiro recobre uma gama inédita de atividades físicas, oferecendo aos pesquisadores e público geral uma formidável base de dados. A geografia dos esportes ganha impulso vital com esta publicação, que não apenas releva a magnitude do esporte no Brasil, como também salienta a necessidade de um maior conhecimento acerca de sua complexa espacialidade. Implantação do IVE (Instituto Virtual dos Esportes), no Rio de Janeiro, incluindo projetos tais como: Mapeamento das instalações esportivas na cidade do Rio de Janeiro, A espacialidade e o simbolismo dos estádios de futebol no Estado do RJ, e Impacto Sócio-Econômico dos Jogos Pan- Americanos e dos Jogos Olímpicos.

Situação Atual:
Mundialmente, a geografia dos esportes segue sua evolução, com crescimento lento e gradual. No Brasil, realiza passos decisivos, com o surgimento de teses e dissertações. As monografias de graduação seguem se expandindo, em diversos estados da federação. Livros acadêmicos de geografia começam a incluir os esportes indicando tendências de que as perspectivas para a análise geográfica dos esportes no Brasil sejam bastante promissoras. Por outro lado, o crescente reconhecimento da geografia como ciência social e dotada de olhar peculiar vem estimulando o intercâmbio com áreas afins. Desta forma, estudos esportivos realizados por historiadores, sociólogos, profissionais de Educação Física, antropólogos, economistas etc., vem incorporando em suas análises temas, conceitos e perspectivas provenientes da geografia, conferindo a suas investigações uma salutar dimensão espacial, tradicionalmente negligenciada pela teoria social em sentido amplo.

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