ESPORTE NO BRASIL do Império aos Dias Atuais

HISTÓRIA DO ESPORTE NO BRASIL : Do Império Aos Dias Atuais

Desde o início do século XX, contar a(s) história(s) do esporte no Brasil costumava ser iniciativa de indivíduos que, preocupados com a preservação memorialística do passado de práticas as quais vivenciaram, direta ou indiretamente, de ouvir falar ou de presenciar, se dedicavam ao registro escrito de uma infinidade de informações e estórias a elas relacionadas. Nesse grupo se inserem antigos praticantes e/ou meros espectadores adicionados e até mesmo os jornalistas que acompanhavam o cotidiano e viam o contínuo desenvolvimento dessas práticas de caráter esportivo. Apenas a partir dos anos 1970 e 1980, é que foram dados os primeiros passos no sentido de se contar essa(s) história(s) de um outro ângulo, isto é, da perspectiva daqueles que até então observavam a realidade esportiva brasileira (quase sempre com desdém, e por vezes com ojeriza) de cima de suas torres de marfim, instaladas nos centros universitários país afora.

História do esporte no Brasil: do Império aos dias atuais, livro organizado por Mary Del Priore e Victor Andrade de Melo, ambos autores já consagrados em suas áreas de atuação profissional, se constitui numa contribuição que, simultaneamente, expressa e tenta consolidar mais firmemente essa tendência de interesse de pesquisadores acadêmicos, pelas práticas esportivas, sobretudo aqueles vinculados de algum modo às ciências humanas e à educação física. Impossível não dizer que a obra é de qualidade e, nela, o locus e a dimensão do fenômeno esportivo nas sociedades modernas, em especial na brasileira, são realçados devidamente, enfatizando, assim, tanto a sua importância social como os seus sentidos e significados, e isto devidamente contextualizado em termos históricos. Percorrendo desde as décadas iniciais do século XIX até o limiar do século XXI , este livro – que tem como pano de fundo teórico comum a chamada Nova História Cultural – tem como pergunta básica que norteia os seus capítulos a seguinte questão, destacada pelos autores: “Como o esporte, ou, para ser mais preciso, as práticas corporais institucionalizadas (esportivas, ginástica, Educação Física, capoeira) ajudam-nos a entender melhor a história do país?”

Sociólogos como Norbert Elias, Eric Dunning e Pierre Bourdieu e os historiadores Eric Hobsbawm e Johan Huizinga são exemplos de intelectuais que já haviam apontado, em algumas de suas obras, o lugar de destaque dos esportes nas sociedades modernas, sobretudo no século XX, quando esses emergem como uma das principais manifestações de ordem cultural de diversos povos. Além de salientar o cará- ter tipicamente moderno da prática esportiva, esses autores concebiam que esta, em hipótese alguma, poderia ser tratada e entendida desvinculada das demais dimensões que compõem a vida social, tais como a economia, a política, a cultura etc.

Nesse sentido, História do esporte no Brasil vem preencher uma lacuna existente nos estudos sobre o campo esportivo no Brasil. Estes, em geral concentrados nos aspectos referentes a um único esporte, o futebol, muitas vezes também carecem de uma compreensão adequada e não-reducionista das ligações entre as práticas corporais desse tipo e o desenvolvimento histórico da sociedade brasileira e dos diversos segmentos que a constituem. O livro contorna esses problemas na medida em que consegue tecer, de maneira hábil, um emaranhado de discussões que dialogam entre si de modo constante e a partir de diversos níveis analíticos. Isto possibilita ao leitor visualizar, com bastante nitidez, como e por que os sentidos e significados do ideário da modernidade em boa medida se articularam, em nosso país, com a própria necessidade e/ou desejo de vivência dos indivíduos e grupos sociais de aderirem a atividades que envolviam o uso mais ou menos intenso do corpo, seja com fins de lazer e sociabilidade, seja com fins de se inserir no processo em curso de modernização do país.

Vale destacar também a rara sintonia existente entre os vários autores convidados a escrever os dezessete capítulos que compõem o livro, os quais, mesmo que não intencionalmente, talvez, conseguiram prender-se ao objetivo proposto por Mary Del Priore e Victor Andrade de Melo: entender a moderna história nacional por meio das variadas práticas corporais institucionalizadas que tiveram, entre nós, por assim dizer, alguma “representação” histórica. Deste modo, a despeito de seu caráter panorâmico – em alguns textos até excessivamente –, a obra aborda com propriedade, entre outras temáticas: 1) a configuração do campo esportivo no país, entre o final do século XIX e o início do século XX; 2) o incentivo, recorrente, à prática esportiva como meio de promover a educação dos corpos dos brasileiros, com vistas ao desenvolvimento da nação; 3) as tensões sociais envolvendo a apropriação e significar cação, pelos segmentos populares, de práticas esportivas antes reservadas, em sua maioria, às elites dirigentes urbanas, sobretudo no caso do association football; 4) o uso político do esporte em momentos singulares de nossa história, como a era Vargas (1930-1945) e a ditadura militar (1964-1985); 5) a nova conformação do campo esportivo no Brasil nas últimas décadas, graças à popularização dos chamados esportes na natureza/ esportes radicais e ao advento da globalização; 6) as disputas que permeiam a construção de identidades no mundo social, considerando-se a prática esportiva, em escala ampla (nacional) ou restrita a algum segmento (classe, étnico/racial, gênero) etc.

Do nosso ponto de vista, algo decisivo para o êxito da empreitada por ora avaliada foi o fato de os organizadores terem incumbido a produção dos textos a pesquisadores provenientes de diversas áreas do saber; tanto àqueles experientes e reconhecidos por trabalhos anteriores como aos jovens talentosos que iniciam sua carreira. Isto certamente contribuiu para que o livro pudesse narrar a história esportiva do Brasil levando em conta múltiplas perspectivas e novos olhares, o que permitiu evidenciar os vários caminhos pelos quais o esporte se desenvolveu no Brasil. Como bem salienta Victor Andrade de Melo no capítulo 2 do livro, escrito por ele:

Como se tratava de uma manifestação cultural importada, que chegava com os ventos de modernização que sopravam fundamentalmente do continente europeu, a prática esportiva adquiriu em terras brasileiras contornos peculiares.

Todavia, faz-se necessário comentar alguns problemas que marcam a obra. O primeiro deles é a falta de uma melhor revisão final do texto, o qual, não raras vezes, exibe erros descabidos de pontuação e concordância, bem como de identificação do significado de determinadas siglas institucionais. O segundo se refere à desproporcionalidade no trato de determinadas práticas, em detrimento de outras tão ou mais importantes no contexto esportivo brasileiro. Embora seja compreensível (e um tanto inevitável) o destaque especial que deve se dar à análise dos aspectos históricos e simbólicos relacionados ao futebol no Brasil, porquanto este ser o esporte mais popular e disseminado entre nós, é difícil entender a pouca ou nenhuma atenção dada a outros esportes que, no Brasil, sobretudo nas últimas décadas, têm despertado o interesse prático e emocional de um número cada vez maior de brasileiros. Esse é o caso do voleibol, basquetebol, futsal (ou futebol de salão), judô, iatismo, entre outros historicamente mais “representativos”2 . E tal coisa torna-se ainda mais fl agrante, se considerarmos o fato de que às práticas talvez socialmente menos valorizadas no país – o que não implica dizer que as mesmas não possuem importância em termos esportivos, muito pelo contrário –, como é o caso dos esportes na natureza e/ou esportes radicais, seja concedido um espaço de análise a nosso ver despropositado.

Diante do que foi escrito até aqui, é possível afirmar que a leitura de História do esporte no Brasil é recomendada para todos aqueles que desejam conhecer melhor a(s) história(s), em terras brasileiras, desse tipo específico de prática corporal que é o esporte, a qual, tendo sido “inventada” na Europa lá pelos séculos XVIII e XIX, rapidamente tornou-se uma tradição vivenciada com satisfação ímpar por sociedades das mais diversas regiões do planeta. Muita coisa ainda há a ser contada sobre a história da prática esportiva no Brasil, é fato. Mas é certo também que a obra que aqui apresentamos representa uma das fontes mais completas atualmente disponíveis para a pesquisa da temática.

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