História da Economia da Argentina

ARGENTINA

A formação da Argentina, como unidade política e territorial, não se deu imediatamente após a independência. Na verdade, foi um caminho longo e tortuoso, que se estendeu de 1816 até 1880. O principal obstáculo à formação do Estado Nacional foi a divergência entre Unitaristas e Federalistas. Os unitaristas que, durante o processo de independência, tinham uma tendência monarquista, representavam basicamente a burguesia portenha e os engordadores de gado (invernistas) da província de Buenos Aires.

Os federalistas representavam as oligarquias do interior. Fundamentalmente, os primeiros, os unitaristas, defendiam um governo centralizado sob o controle de Buenos Aires. Já os federalistas pretendiam garantir total autonomia política para as províncias, discordando do domínio portenho e, sobretudo, do seu controle das rendas da alfândega de Buenos Aires, a qual pretendiam ver dividida por todo o país.

Da Independência a Rosas

Após a definitiva decisão de Independência em relação à Espanha, em 1816, proclamou-se a existência de um país chamado Províncias Unidas da América do Sul. Como de unidas as províncias só tinham o nome, somente conseguiram aprovar uma Constituição em 1819. O caráter do texto constitucional era claramente centralista, unitarista. Sendo assim, não foi aceito por grande parte das províncias, desencadeando uma Guerra Civil que se estendeu até 1825.

Nessa data, conseguem uma precária unidade em função da luta contra o inimigo comum, o Império do Brasil. O motivo do conflito era o apoio argentino à luta pela independência do território que eles conheciam como Banda Oriental, mas que fazia parte do Brasil com o nome de Província Cisplatina . Em meio a essa guerra, tornam a aprovar uma Constituição, em 1826, sendo presidente Bernardino Rivadavia. Como Rivadavia se mostrasse fortemente unitarista, mas débil na solução do conflito com o Brasil, vê-se forçado a renunciar. E o país mergulha novamente na anarquia.

O Período de Rosas

Um novo momento de equilíbrio se estabelece a partir de 1829, com a vitória do caudilho Juan Manuel de Rosas, líder federalista, sobre seus adversários. Sua influência se estenderá até 1852. Rosas era um dos maiores proprietários de terra e de gado da Província de Buenos Aires. Era um homem conservador, defensor dos interesses dos latifundiários e da manutenção da estrutura social. No entanto, contava com a adesão fanática das massas de gaúchos, peões de estância, que se identificavam com sua figura rude.

Também os artesãos e pequenos comerciantes do interior, desvinculados, e até prejudicados com o comércio exterior, davam irrestrito apoio a Rosas. Rosas não foi presidente da Argentina, foi o Governador da Província de Buenos Aires. Nessa qualidade, e na medida em que a ordem e a estabilidade interessavam às oligarquias, ele desenvolveu uma interessante diplomacia interna, que respeitava a autonomia das demais províncias e de seus respectivos caudilhos. Em troca, tais caudilhos depositavam, em suas mãos, a política externa, e, a partir de 1835, poderes ditatoriais. Como política econômica, adotou uma postura nacionalista.

Estabeleceu tarifas alfandegárias protecionistas, que impediam a concorrência dos produtos industrializados ingleses com os do artesanato argentino. Também fechou a navegação nos rios do interior. Grandes proprietários tiveram ainda o benefício de uma guerra de Rosas contra os índios, que alargou enormemente a fronteira agrária argentina. Sua política nacionalista acaba por confrontá-lo à França e à Inglaterra, no plano externo.

No plano interno, além da oposição de alguns caudilhos, até de grande expressão, os principais inimigos de Rosas eram os unitaristas. Foram duramente perseguidos por Rosas, qualificados de anti-argentinos e “estrangeirados”. Muitos foram mortos, outros presos, e vários exilados, entre estes intelectuais liberais. Em 1852, Rosas está envolvido em conflitos no Uruguai, o bloqueio naval inglês começa a prejudicar a economia mesmo de caudilhos aliados de Rosas, e isso levará a algumas dissidências entre os federalistas.

O governador da Província de Entre-Rios, Justo José Urquiza, federalista defensor de um regime constitucional, que substituísse o personalismo de Rosas, recebe o apoio do Brasil e do Partido Colorado do Uruguai, e consegue derrotar Rosas, na Batalha de Monte Caseros. De qualquer forma, o período de Rosas foi o primeiro da história argentina, em que se constituiu um governo nacional naquele país.

A Consolidação das Oligarquias

Urquiza tentou organizar o país em bases constitucionais, fazendo aprovar uma nova Constituição em 1853. O país passava a se chamar Confederação Argentina. Todavia, Buenos Aires não aceitou participar, ficando de fora do novo país. A capital da Confederação era Paraná. Em 1861, Urquiza tenta um acordo com Buenos Aires, através do general Bartolomé Mitre, que acaba não fazendo acordo e derrotando Urquiza. Em 1862, cria-se a República Argentina, sendo que o cabildo de Buenos Aires aceita hospedar o governo nacional. Notem bem: o governo da nação é apenas hóspede da cidade de Buenos Aires. Isso quer dizer que a renda do porto de Buenos Aires continua da cidade de Buenos Aires, não é uma renda nacional. Nesse período, os unitaristas obtêm o controle do país e implementam uma política que vê o país e seu povo sob a ótica elitista e “estrangeirada” da burguesia portenha.

O futuro do país dependeria deste ponto de vista, da solução do conflito entre civilização e barbárie. A civilização é vista como a adequação aos padrões sócio-culturais europeus que, na Argentina, são incorporados pela burguesia de Buenos Aires. Já o interior, o caudilhismo, a mestiçagem, o gaúcho, são a expressão da barbárie. E esta, logicamente, precisa ser destruída. Os intelectuais e políticos partidários dessas idéias são de extração unitarista, e se intitulam agora Partido Liberal, e alguns, Partido Autonomista.

O nome de maior expressão dessa tendência foi o presidente Domingo Faustino Sarmiento, que governou o país entre 1868 e 74. Para combater a barbárie caudilhista, deu um enorme impulso à instrução pública, subvencionando as escolas das províncias e criando as Escolas Normais, formadoras de professores. Outro ponto chave de sua política foi a modernização do Exército e a reorganização da Escola Naval. Criava assim um instrumento de força que se preparava para monopolizar a violência, eliminando, passo a passo, os exércitos provinciais e de caudilhos.

A rede ferroviária foi ampliada também por Sarmiento, além de estender o telégrafo a todas as províncias e cabos telegráficos submarinos ligando à Europa e aos Estados Unidos. Claro, o branqueamento da raça, necessário à vitória da civilização sobre a barbárie, implica em forte incentivo à imigração européia. Aos imigrantes são concedidos direitos superiores aos dos argentinos das camadas inferiores da sociedade. No governo de Nicolás Avellaneda, 1874- 80, foi empreendida a chamada Conquista do Deserto, que se constituiu numa “razia” militar que, praticamente, exterminou os índios em todo o território ao Sul de Buenos Aires até o Rio Negro. O autor dessa façanha foi o General Julio Argentino Roca, que se elegeria presidente da República em 1880. Roca deve sua eleição a um esquema que já elegera A vellaneda, em que se misturam elementos de origem liberal-autonomista, com um componente fundamental, de origem federalista, com base no poder dos governadores de província. Esse esquema se chamará Partido Autonomista Nacional (PAN). O PAN terá o controle político do país até 1916.

‘’É, pois, a partir de 1880, sob o controle das oligarquias, que se consolidará o Estado Nacional Argentino.’’

Será um poder absolutamente conservador, e baseado, finalmente, em princípios jurídicoconstitucionais, válidos e aceitos por todas as partes, fossem as oligarquias do interior, fosse a burguesia portenha. Tudo, naturalmente, temperado com muita fraude e violência eleitorais. Roca já inicia seu governo com um grande problema resolvido por Avellaneda, pela força, naturalmente: o da federalização de Buenos Aires. A Província de Buenos Aires teria sua capital em La Plata. A cidade de Buenos Aires se tornaria a Capital Federal, e a renda de sua alfândega será, agora, de toda a nação.

A Economia e a Sociedade

O processo de consolidação do Estado Nacional se faz acompanhar de um processo econômico caracterizado pela modernização conservadora. Isso quer dizer que a estrutura social se mantém intacta, enquanto se assiste ao avanço das ferrovias, das comunicações, das instalações portuárias, ao crescimento da criação de ovelhas onde antes se caçava o gado, à criação de melhores raças bovinas, à produção de cereais e ao processo de industrialização. Surgem moinhos, produção de vinho, e frigoríficos. Uma indústria de transformação da produção agro-pastoril, voltada para o mercado externo, já que o interno era de pequena dimensão.

Cresce também o sistema comercial exportador e os bancos. Em torno de tudo isso, um operariado industrial, a ampliação das camadas médias urbanas, comerciantes, banqueiros e especuladores. Em 1890, uma enorme crise financeira, resultado de um processo de negociatas e especulações, levou a uma rebelião de um grupo heterogêneo intitulado União Cívica. O presidente Miguel Juarez Celman teve que renunciar, assumindo seu vice Carlos Pellegrini. Uma dissidência da União Cívica que se recusava a conciliar com o governo constituiu a União Cívica Radical, com Leandro Alem e, sobretudo Bernardo Yrigoyen, representando setores médios e católicos. Em 1893, estoura uma rebelião dos Radicais, que os leva à clandestinidade até 1912.

Nesse ínterim, entra em cena a classe operária e seus primeiros movimentos de conteúdo anarquista, ou socialista, de resto inimigos entre si. Em 1896, elegeu-se pela primeira vez um deputado socialista, Alfredo Palácios, do partido fundado por Juan B. Justo. Em 1910, elege-se presidente Roque Sáenz Peña, o qual promove, em 1912, a Reforma Eleitoral. Estabelecia-se o voto universal, masculino, secreto e obrigatório, além da representação das minorias. Os socialistas propuseram o voto feminino, que não foi aprovado.

O resultado do estabelecimento de eleições livres e honestas foi a vitória da União Cívica Radical, nas eleições de 1916. Hipólito Yrigoyen governará de 1916 a 22, significando a ascensão política dos grupos médios urbanos. Seu governo foi marcado por ampla liberdade de expressão, levando às primeiras conquistas sociais dos trabalhadores e à criação da Yacimientos Petrolíferos Fiscales – empresa estatal de exploração do petróleo. Yrigoyen faz o sucessor: Marcelo Alvear (1922-28). Em 28, Yrigoyen é novamente eleito presidente da República, sendo derrubado por um golpe de militares simpatizantes do fascismo, em setembro de 1930. Começava um novo período político, fruto da reação ao processo democratizador dos governos radicais.

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