História da Dança

Antes do homem se exprimir através de uma linguagem oral, ele dançou. A dança foi à expressão do homem através da linguagem gestual. O homem estabeleceu posteriormente todo um código de sinais, gestos e expressões fisionômicas ao qual imprimiu vários ritmos. A dança então foi à primeira manifestação de comunicação do homem. A partir dessa perspectiva, este estudo objetiva verificar a dança no processo histórico, construindo um material rico em conhecimento, voltando olhares para seu status atual. A revisão bibliográfica realizada identificou que a dança esta em todo o processo de civilização acompanhando a sociedade e servindo como meio para o homem expressar. Assim a dança esta presente em todo processo de civilização e acompanha a evolução social, percebe-se com os professores de Educação Física que a tem como conteúdo escolar, com as academias de alto rendimento, com a mídia extremamente acessível. Enfim, continuará existindo expressão de movimentos e sentimentos se houver compreensão histórica da arte mais completa e antiga do mundo.

Introdução

Abordaremos aqui, um pouco sobre a origem da Dança na vida do homem e sua trajetória histórica, desde os tempos mais primitivos até os dias de hoje. A pesquisa da história da dança no seu maior âmbito fez refletir sobre como ela se insere no espaço social desde o surgimento da humanidade como produtora de cultura até os dias atuais.

A Dança no contexto histórico

– Origem da Dança na vida do homem e sua trajetória histórica

Na busca da origem da Dança encontrou-se que antes do homem se exprimir através de uma linguagem oral, ele dançou (linguagem gestual). Em Ellmerich (1964) no Egito havia Danças sacras em homenagem a ÁPIS, o “touro sagrado”, diante de HAT HOR a deusa da dança e da música. Percebemos aqui a linguagem gestual da Dança diretamente ligada às marcações rítmicas da música, passando a ser denominada essa junção de ritual. Ribas (1959) afirma que o homem estabeleceu posteriormente todo um código de sinais, gestos e expressões fisionômicas ao qual imprimiu vários ritmos.

O ritmo, que acompanha o gesto, é uma descarga emocional servindo para regular e medir todas as forças vitais; é ele que estabelece a harmonia e equilíbrio dos movimentos, preside à ordem das coisas e dá aos gestos do homem e às suas reações a força e a expressão. O ritmo é o primeiro movimento da vida que incide sobre os músculos do corpo humano. Para confirmar esse estudo detectamos que

Existem indícios de que o homem dança desde os tempos mais remotos. Todos os povos, em todas as épocas e lugares dançaram. Dançaram para expressar revolta ou amor, reverenciar ou afastar deuses, mostrar força ou arrependimento, rezar, conquistar, distrair, enfim, viver! (TAVARES, 2005, p.93).

Ainda percebe-se nessa primeira forma de comunicação, que ela

[…] aparece registrada nos mais antigos testemunhos gráficos da préhistória, documento que datam da última época glaciar, dez a quinze anos antes da nossa era e podem ser observados nas cavernas préhistóricas do Levante espanhol – Alpera (Valência) e Cogull (Lérida) – e são semelhantes a outros documentos pré-históricos relativos à Dança encontrados na África do Sul (Rodésia e Orange) e na França (Solutrais e Dourdogne). Tais pinturas rupestres levam-nos a crer que o homem primitivo executava danças colectivas nas quais predominavam os movimentos convulsivos e desordenados […] (RIBAS, 1959, p.26).

Quando o homem sai do seu estado primitivo, estado selvagem, e passa a outro padrão de vida que é o de viver em sociedade, surge à organização do trabalho para a sobrevivência comum, e esse trabalho é a caça, a trituração de raízes, sementes, folhas, etc. Muitos desses trabalhos eram efetuados e regulados por marcações rítmicas, como pancadas e gritos.

Mais adiante na história da humanidade detectamos que os hebreus possuíam Danças próprias e outras provavelmente de origem egípcia. No velho e o novo testamento dos textos bíblicos obteve-se exemplos de quatro momentos em que a Dança estava presente, primeiro como

Quando a cavalaria do Faraó entrou no mar com seus carros e cavaleiros, Javé fez voltar sobre eles as águas do mar, enquanto os filhos de Israel caminharam a pé enxuto pelo meio do mar. A profetisa Maria, irmã de Aarão, pegou tamborim, e todas as mulheres a seguiram com tamborins, formando coros de dança. E Maria entoava:

“Cantem a Javé, pois sua vitória é sublime: ele atirou no mar carros e cavalos”. (BÍBLIA SAGRADA, 1995, p. 87, êxodo 15-16, c 15 v 19,20 e 21).

Depois na festividade ao falso deus de Israel (bezerro de ouro construído por Aarão com os brincos das mulheres) que é interrompida por Moisés que desce do Monte Sinai para salvar o povo da perversão, observa que

Quando se aproximou do acampamento e viu o bezerro e as danças, Moisés ficou enfurecido, jogou as tábuas e as quebrou no pé da montanha. Pegou o bezerro que haviam feito, o queimou e moeu até reduzi-lo em pó. Depois espalhou o pó na água e fez os filhos de Israel beberem. (BÍBLIA SAGRADA, 1995, p. 105, êxodo 32, c 32 v 19 e 20).

Terceiro exemplo é dos dez mandamentos que Moisés trouxe do Monte Sinai e foram guardados dentro de uma arca (espécie de baú) que era aberta somente por uma pessoa pura de pecados uma vez por ano. Uma dessas pessoas foi Davi que a transportou da casa de Obed-Edom para a sua cidade. Quando chegaram

Davi dançava com todas as suas forças diante do Senhor, cingido com um efod de linho1. O rei e todos os israelitas condizaram a arca do Senhor, soltando gritos de alegria e tocando a trombeta. Ao entrar a arca do Senhor na cidade de Davi, Micol, Filha de Saul, olhando pela janela, viu o rei Davi saltando e dançando diante do Senhor, e desprezou-o em seu coração… Voltando Davi para abençoar a família, Micol, filha de Saul, veio-lhe ao encontro e disse-lhe: “Como se distinguiu hoje o rei de Israel, dando-se em espetáculo às servas de seus servos, e descobrindo-se sem pudor, como qualquer um do povo!” – “Foi diante do Senhor que dancei, replicou Davi; diante do Senhor que me escolheu e me preferiu a teu pai e a toda a tua família, para fazer-me o chefe de seu povo de Israel. Foi diante do Senhor que dancei.(BÍBLIA SAGRADA, 2006, p. 342, Samuel, c 6 v 14, 15, 16, 20 e 21).

Por fim temos a história de que havia muitos boatos sobre Jesus, de que era Elias, de que era um profeta como qualquer outro, mas o rei Herodes repetia que era a ressurreição de João Batista. Herodíades, casada com Filipe que era irmão do rei, teria se interessado por João que em Marcos, c 6 v 18 (2006) percebemos que ele dizia “não te é permitido ter a mulher de teu irmão”, e assim ela o odiava e queria matá-lo. Até que chegou o dia oportuno, o aniversário do rei Herodes, que este convidou para um banquete algumas pessoas da corte e os principais da Galiléia. Então

A filha de Herodíades apresentou-se e pôs-se a dançar, com grande satisfação de Herodes e dos seus convivas. Disse o rei à moça: “Pedeme o que quiseres, e eu to darei.” (BÍBLIA SAGRADA, 2006, p. 1329, Marcos, c 6 v 22).

Sem saber o que falar correu até a Mãe que a aconselhou e a frente de Herodes e seus convidados pediu a cabeça do profeta João Batista, narrador no novo testamento, que logo em seguida foi decapitado no cárcere onde já estava preso a pedido de Herodíades.

As Danças religiosas eram executadas nos próprios templos ou em outros lugares, mas para uma entidade superior como o “Senhor” citado nos textos bíblicos. Destas ressalta-se a dança das tochas executada na festa dos tabernáculos. É provável que na corte do rei Salomão já existisse bailarinas profissionais.

Através de Platão, Sócrates um dos grandes filósofos gregos, considerou a Dança como a atividade que formava o cidadão por completo. A Dança daria proporções corretas ao corpo, seria fonte de boa saúde, além de ser ótima maneira de reflexão estética e filosófica, o que a faz ganhar espaço na educação grega. O homem grego não separava o corpo do espírito e acreditava que o equilíbrio entre ambos que lhe trazia o conhecimento e a sabedoria.

Nessa época histórica não nos passa despercebido que havia Dança também entre os Etruscos e os Romanos. Entre os Etruscos só se observa à Dança através de representações, pois não há, até hoje, conhecimento de textos escritos. Mas podemos perceber, que recebeu forte influência dos gregos desde o Séc. VII a.C., pelas representações em que aparecem indícios de Danças guerreiras, dionisíacas, de Banquete, entre outras. As representações mostram movimentos harmônicos entre gestos e discursos, na mímica antiga. Este estudo como outros dentro desse tema, agradece

A arqueologia, maravilhosa ciência que tanto esclareceu e continua a esclarecer sobre o nosso passado próximo ou longínquo,ao traduzir a escrita de povos hoje desaparecidos, não deixa de indicar a existência da dança como parte integrante de cerimônias religiosas, parecendo correto afirma-se que a dança nasceu da religião, se é que não nasceu junto com ela. (FARO, 1986, p. 13).

Entre os Romanos, a Dança parecia ter um sentido mais claro e específico: tudo girava entorno de Reis, República e Império. Do séc. VII ao Séc. VI a.C., Roma foi dominada pelos Etruscos; assim, as Danças eram de origem agrária. Mas, podemos destacar também as danças guerreiras (costume entre os Salinos) celebradas amplamente durante a primavera, e em honra a Marte, deus da guerra, ou seja, ainda nessa época encontra-se a Dança sagrada.

A população era basicamente de soldados em Roma, onde desprezava-se a Dança, considerando-a incompatível com o espírito do povo conquistador, então degradaram a Dança como fizeram com a poesia, a escultura e a filosofia. A maior parte do povo surgia nas enormes arenas, por exemplo, no Coliseu e no Circus Maximus, para ver gladiadores lutando com animais ferozes; isso sim era arte.

No Baixo Império, na Roma cosmopolita da época, onde não mais podia se representar o drama falado por causa da diversidade de línguas, e onde os espetáculos refletiam a decadência da história, as artes tornaram cada vez mais grosseiras, sendo representadas pela violência sádica do circo e a obscenidade da pantomima. A Dança foi, assim, envolvida na corrupção do modo de vida romano.

Na condenação do cristianismo de que esse mundo apodrecia, ele englobou as artes que refletiam essa decomposição. Percebe-se que

Os padres da Igreja, Santo Agostinho entre elas, condenara “essa loucura lasciva chamada dança, negócio do diabo”. Além desta maldição circunstancial, a contaminação do pensamento bíblico pelo dualismo grego que levou São Paulo a opor o espírito aos sentimentos e a desprezar o corpo: o bem, no homem, só está na alma, e todo o mal vem da carne. Essa perversão dualista do cristianismo trouxe como conseqüências a consideração do corpo como obstáculo à vida da alma e a orientação da vida para outro mundo, com a negação da carne, que deve ser ignorada, punida, e mortificada. (WISSMANN, 2008).

A Dança perdeu sua força nessa atmosfera de suspeita em relação ao corpo. A partir do século IV, com os imperadores ditos “cristãos”, o teatro e a Dança foram condenados. O batismo era recusado aos que atuavam no circo ou na pantomima. E 398, no Concílio de Cartago, os que iam ao teatro nos dias santos foram excomungados. Mesmo no século XVII, na França, os comediantes ainda não podiam ser enterrados no “campo santo”. A tradição popular, no entanto, é tão forte que até o século XII a Dança, sob a forma de rondas que acompanhavam os salmos, fez parte da liturgia. A partir do século XII, a Dança foi banida.

Não sobreviveu senão nas “danças macabras”, Danças da morte e contra a morte, numa época de temor a fome, da guerra e da peste. Na época da peste negra, 1349, multiplicaram-se os fenômenos de transe e possessão, com as Danças convulsivas. Fora disso só se desenvolveram as Danças profanas: as caroles dos camponeses, que se desdobraram nas farândolas evocadas por Breughel e depois Rubens, e as basses danses dos nobres, sufocados em pesadas vestimentas de luxo.

É apenas no renascimento que a Dança voltou a florescer, quando surgiu uma nova atitude em relação ao dualismo cristão, e os valores mundanos da vida e do corpo foram novamente exaltados. No mundo Renascentista em vias de secularização, as artes que estavam até então a serviço da Igreja, tornaram-se símbolo de riqueza e poder. Temos como exemplo no século XV, na Itália, o ballet que nasceu do cerimonial da corte e dos divertimentos da aristocracia.

Pode-se dizer, a rigor, que a Dança dessa época saiu do gueto, porque, tendo sida repudiada pela sociedade oficial da Igreja, a tradição só foi mantida por causa dos guetos e só no século XV que surgiu o primeiro grande professor da Dança da Itália, foi Guglielmo Ebreo (Guilherme, o Judeu) que teve um papel fundamental na criação do ballet como coreógrafo do duque Urbino, na mesma época em que Piero della Francesca era pintor deste. Depois Guglielmo Ebreo passou a servir Loureço, o Magnífico. Foi também o autor do primeiro tratado da Dança, neste apresenta-se as qualidades de um dançarino: o ritmo, pelo qual ele segue a cadência; a memória dos passos e suas combinações; o sentido do espaço, para compor figuras num enquadramento limitado; ser leve dominando a arte do salto e da queda elegante; a “maneira”, isto é, o estilo de elegância e a coordenação dos movimentos do corpo que se desloca com graça e precisão.

Na idade média, nas Danças populares, encontramos os mesmos motivos das Danças primitivas. O cristianismo conseguiu atenuar, mas não apagar completamente o sentido pagão dessas Danças. O carnaval é a festa mais popular sob o ponto de vista cultural e psicológico; trata-se de uma “válvula de escape”, sem dúvida necessária, para que o povo, durante um curto período, possa expandir seus sentimentos, recalcados no severo regime de servidão feudal e tutelado pelo clero, como exemplo dessa proibição tem-se a inquisição sempre onipotente e a submissão de imperadores e reis ao papa.

Ellmerich (1964) indica que a própria palavra carnaval provém de “carrus navalis”, o barco a remo que levava o primeiro bailarino e chefe do coro do dithyrambus, é a comemoração da fertilidade do deus Dionísio, sua morte e sua ressurreição. Na era cristã, com transição dos costumes pagãos, o carnaval que precede os 40 dias da quaresma, e passa a significar “carne vale”, isto é, “adeus à carne” em vista da aproximação da quaresma que exige rigorosa abstinência. Ao passarem esses tipos de Danças de cunho religioso do domínio dos sacerdotes para o domínio do povo, elas transformaram-se em manifestações populares.

Essa transição da Dança religiosa para a folclórica pode ser percebida também em uma passagem em que

Encontram-se em França muitos interlúdios de castelos em que se reconhecem e elaboram os elementos dos futuros ballets de côrte: “entremezes” de dança, de acrobacias, de atrações exóticas; festas de grandes cidades para as chegadas de reis e príncipes com cavalgadas, carro de pantomimas, quadros vivos; “momices” com máscaras e disfarces. Todos os anos pelo Carnaval havia grandes festas; e outras surgiam pelo decorrer do ano.(MICHAUT, 1978, p. 10).

É interessante notar com Faro (1986) que, durante vários séculos, a Dança era apanágio do sexo masculino, e só muito mais tarde as mulheres passaram a participar ativamente das Danças folclóricas.

Na segunda parte da idade média surge o mestre de Danças que acompanha seus senhores, os nobres, e tem muitas vezes cargo de confiança. Aos poucos se converte em professor de boas maneiras e desde então, a Dança faz parte da educação dos cavalheiros.

Podemos comprovar sobre os mestres de Dança em uma nota de rodapé de um clássico que

Todos os cortesãos e os próprios reis eram amadores apaixonados da dança, habituados desde jovens à dança (como na maioria, tinham noções de música e tocavam um instrumento). Henrique II e Francisco II foram alunos do mestre de danças milanês Virgilio Brascio; Carlos IX, de Pompeo Diobone; Henrique III, de Francesco Giera; Luís XIII, do francês Boileau e Luís XIV, do ilustre Beauchamp. (MICHAUT, 1978, p. 13).

É nessa parte da história que o ballet toma todos os olhares, complicando a Dança de domínio do povo para ser uma Dança de domínio de quem poderia se manter dela, escapando dos cortesãos “amadores” para agora tornar-se a ocupação de profissionais como o rei Luís XIII; o ballet subiria às cenas mais elevadas do teatro mudando a sua ótica e transformando a sua técnica. Os movimentos dos braços, dos joelhos, os tempos saltados e batidos e logo depois as figuras de elevação, passarão a não ser vistos do alto como na pantomima, mas de frente, horizontal como uma Dança espetáculo. Temos então algumas vezes uma estreita união entre a pantomima e a Dança, o equilíbrio entre representações e passos virtuosismo, mas que dão certo encanto a estes ballets.

Com essa grande transformação da Dança tomando seu lugar e se caracterizando a partir de suas necessidades Michaut (1978) descreve que Beauchamp inventou um sistema de escrita coreográfica a fim de anotar a sua Dança por sinais. Sua obra inédita perdeu-se e se não foi a partir dela, foi pelo menos de acordo com seu aluno Pécourt que Feuillet estabeleceu a sua coreografia: a primeira gramática e o primeiro código da Dança francesa, que mais tarde viraria base para se ensinar e aprender qualquer outra Dança.

A partir do século XV aparecem os primeiros tratados teóricos: Domenice ou Domenichine de Plasencia escreveu “Da la arte di ballare et danzare”; em 1455, Antonio Cornazaro publica o “Libro dell’arte del danzare”. Na França, o tratado mais antigo é a “Orchésographie” de autoria de Thoinot – Arbeau, cônego da catedral de Langres; o volume foi impresso sem autorização do clérigo, pelo livreiro Jehan dês Preys em 1589. Sob o pseudônimo de Jean Tabouret, o cônego explica no seu livro as Danças admitidas na corte francesa. Esses dados foram coletados em Ellmerich (1964).

Até aqui a história da Dança foi lembrada do processo de civilização do mundo. Agora a atenção é do Brasil, país muito novo perto dos outros do nosso planeta, mas que a Dança para Ribas (1959) é também “… uma coordenação estética de movimentos corporais, uma expressão rítmico-musical de sentimentos humanos” sendo então de extrema necessidade ao homem brasileiro.

A Dança brasileira foi vista pela primeira vez

“… em solo europeu, realizou-se em 1550 na cidade de Ruão, capital da

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