A partir de 1950, muitas formas de resistência surgiram contra os governos autoritários, o sistema capitalista e a globalização. Quem foram os sujeitos desses movimentos?
A ordem estabelecida pode ser contestada?
Quem a estabeleceu? Quem deve se submeter às pessoas que ditam esta ordem? Alguém deve obedecê-las?
Você conhece algum grupo que luta por um mundo melhor e por direitos?
São estas questões que você poderá discutir a seguir.

Um mundo em transformações aceleradas
Após a Segunda Guerra Mundial, ocorreram transformações sensíveis no mundo. Essas modificações referem-se, principalmente, à participação do Estado na vida econômica, aparentemente rompendo os princípios clássicos do liberalismo. Esta intervenção é claramente visível nas tendências relativas à formação de companhias estatais, à regulamentação de salários e ao planejamento econômico das nações.
Estas tendências, que haviam sido iniciadas logo após a crise de 1929, acentuaram-se após 1945. O capitalismo assume a forma do Estado de Bem Estar Social, com a implantação de alguns benefícios às classes trabalhadoras. No entanto, sua estrutura continuou a mesma: propriedade particular, lucro e, por extensão, a desigualdade social continua existindo normalmente.
As décadas de 1960 e 1970 foram marcadas pelas lutas (algumas às vezes de forma organizada, outras não) de variados segmentos sociais que passaram a questionar a ordem estabelecida pelo capitalismo e seus representantes na busca por maiores direitos civis, sociais e políticos.
Entre os vários grupos de sujeitos históricos que realizaram movimentos de resistência à dominação capitalista e à estruturação da sociedade em seus moldes estão os camponeses, os negros e os jovens e as mulheres.
Nos anos 1990, com o avanço do processo de globalização atual, outros movimentos vêm a tona contestando a exclusão social, o desemprego e os governos dos países de economia desenvolvida.

Os camponeses e a luta pela terra
A luta pela terra esteve presente, ao longo do tempo, em muitas sociedades.
Algumas realizaram reforma agrária estabelecendo uma divisão mais justa das propriedades de terra, como foi o caso da Itália, que realizou uma reforma agrária a partir de 1948. A Rússia redistribuiu as terras após a Revolução de 1917, mas a posse legal passou a pertencer ao Estado. A França, após a Revolução de 1789, redistribuiu as terras da Igreja Católica e da Nobreza entre os camponeses. Os EUA, em meados do século XIX, doava terras no Oeste a quem desejasse cultivá-las, fazendo desta distribuição o alicerce de sua estabilidade social.
Enquanto isso, na América Latina, principalmente no Brasil, o Estado colocou empecilhos para que pequenos agricultores adquirissem terras.
Devido a isso, até hoje a América Latina, inclusive o Brasil, possui uma estrutura fundiária composta por grandes latifúndios.
Você pode se perguntar por que esta situação se alterou em países como a França, os EUA, a Itália e por aqui, no Brasil, continuou a mesma coisa?

Uma das explicações pode estar no fato dos países da América Latina possuírem uma economia baseada na exportação de produtos agrícolas.
A industrialização, na maioria dos países sul-americanos, tem suas origens no modelo primário-exportador. A maior parte dos governos pouco fez para reverter esta ordem, as reivindicações dos camponeses foram negligenciadas ou reprimidas. Marginalizados, os camponeses que não conseguiam sobreviver dignamente com seu trabalho, exigiam dos governos a realização de reformas agrárias. Veja os exemplos do México e do Brasil relativos à segunda metade do século XX.

Os Zapatistas no México
Em 1º de janeiro de 1994, data em que começou
a vigorar o Acordo de Livre Comércio
da América do Norte (NAFTA), também marcou
o inicio das ações do Exército Zapatista de
Libertação Nacional (EZLN). Eles assumiram o
controle das principais cidades nas proximidades
da Floresta de Lacandon, no estado mexicano
de Chiapas.
Formado por camponeses, a maioria índios
txeltales, txotziles e choles, em geral oriundos
das comunidades agrárias instaladas na região
das florestas tropicais de Lacandon, na fronteira
com a Guatemala, os zapatistas, como ficaram
conhecidos, eram contra o NAFTA e a
política de modernização da economia mexicana
que prejudicava a produção dos pequenos
camponeses e favorecia os grandes latifundiários.
A inspiração deste movimento teve origem
com Emiliano Zapata (1879-1919), líder da Revolução
Mexicana (1910). Neste período, a vitória
dos revolucionários teve como exigência
a redistribuição das terras aos indígenas e
aos camponeses. Fato que só foi acontecer 20
anos mais tarde, quando o governo mexicano
entregou setenta milhões de hectares a três milhões
de famílias.
A partir de 1992, vários direitos das famílias
que ocupavam as terras em reservas, principalmente
na Floresta de Lacandon, foram sendo
anulados por decretos do então presidente
Carlos Salinas de Gortari (1948- ), favorecendo
os grandes proprietários de Chiapas. Ao mesmo
tempo, este governo acabou com os subsídios e o protecionismo à produção de milho e café arruinando a economia
das pequenas comunidades.
Em 1992 e 1993, os camponeses mobilizaram-se pacificamente contra
essas políticas, no entanto, suas manifestações foram ignoradas pelo
governo. Em 1993, os camponeses mexicanos se organizaram para a
luta armada e realizaram os primeiros conflitos com o exército. Em janeiro
de 1994, toda comunidade nacional mexicana e internacional tomou
conhecimento da causa zapatista, o que forçou o governo de Salinas
a entrar em negociação com este movimento.

Documento 2
Comunicado do Comitê Clandestino Revolucionário Indígena – Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional.
México, outubro de 2004.
Ao povo do México:
À sociedade civil nacional e internacional:
Irmãos e irmãs:
OEZLN se dirige a vocês para dizer a sua palavra:
Primeiro. Devido à hostilidade de grupos paramilitares e à intolerância alimentada em algumas comunidades pelo Partido Revolucionário Institucional, dezenas de famílias indígenas zapatistas, há tempo, se viram obrigadas a refugiar-se e formar pequenos núcleos populacionais na chamada “biosfera dos Montes Azuis”. Durante o tempo em que permaneceram nesta terrível situação, longe de suas terras de origem, os zapatistas refugiados se esforçaram para cumprir nossas leis que mandam cuidar dos bosques. Apesar disso, o governo federal de mãos dadas com as transnacionais, que pretendem apoderar-se das riquezas da selva Lacandona, mais de uma vez, ameaçaram desalojar violentamente todos os povoados desta região, incluindo os zapatistas. Os companheiros e companheiras de várias comunidades ameaçadas de desalojamento decidiram resistir enquanto o governo não cumprir os chamados “acordos de San Andrés”. Sua decisão é respaldada e apoiada pelo Exército Zapatista de Libertação Nacional. Sublinhamos isso no devido momento e agora o ratificamos: se alguma de nossas comunidades é desalojada com violência,  responderemos, todos, no mesmo tom.
Segundo. Com o avanço das chamadas “juntas de bom governo”, grande parte das comunidades indígenas zapatistas se muniu de meios que melhoram substancialmente suas condições de vida.
Sobretudo no que diz respeito à saúde e à educação, as comunidades rebeldes conseguiram avanços, sem nenhum apoio governamental federal, estadual ou dos municípios oficiais, que superam com folga os das comunidades vinculadas à oficialidade. Isso tem sido possível graças ao apoio de irmãos e irmãs de todo o México e do mundo.
Contudo, estes benefícios não conseguem cobrir todas as comunidades rebeldes. Particularmente, as populações refugiadas nos Montes Azuis não são beneficiadas por estes avanços. .(…) Sétimo. Esperamos sinceramente que a sociedade civil nacional e internacional responda ao nosso apelo para apoiar estas comunidades e melhorar assim suas condições de vida zapatista, ou seja, de luta e resistência.(…)
Democracia! Liberdade! Justiça! Das montanhas do Sudeste Mexicano.
Pelo Comitê Clandestino Revolucionário Indígena – Comando Geral do Exército Zapatista de Libertação Nacional.
Subcomandante Insurgente Marcos.
México, outubro de 2004, 20 e 10.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *