A História da Al-Qaeda

Al-Qaeda e Política Internacional

Desde os cruéis ataques de 11 de setembro de 2001 o governo dos EUA – com George W. Bush. Dick Cheney. Donald Rumsfeld. Robert Bolton e outros representantes do chamado “neoconservadorismo” – adotou a tese de que a maior ameaça global (bem à frente das demais “novas ameaças” inerentes ao globalismo) era o terrorismo jihadista (derivação da palavra Jiliad. guerra santa dos muçulmanos, mas também chamado de terrorismo islâmico ou fundamentalista ou ainda mujahidin – da expressão árabe “guerreiro santo”). Neste caminho, já em 14 de setembro de 2001. na sua primeira fala pós-impacto. Bush declarou unia “cruzada” contra o terrorismo. Em face da gafe – afinal, as cruzadas foram terríveis e não provocados ataques do mundo cristão contra um Islã. em seu conjunto, então complacente e tolerante.

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Atentados de 11 de Setembro de 2001

Como uma corrigenda, a Casa Branca renomeou sua estratégia como “Guerra global contra o terrorismo internacional”. Paia a consecução de seus objetivos, a Administração Bush buscou todos os meios da grande potência americana: ações encobertas das tropas especiais: tribunais secretos: sequestros internacionais: tortura (aberta e direta em Abu Graib. no Iraque, e sutil e humilhante em Guantánamo. Cuba): controle de viagens internacionais: listas de simpatizantes e de “neutros” perigosos: construção de uma incrível rede de segurança centrada no novo departamento de segurança doméstica (o “Homeland Security”) e. acima de Uido, e em primeiro lugar, a represália bélica em larga escala. Foi assim que Bush desencadeou, em 2001. a guerra contra o Afeganistão e. em 2003. a Guerra no Iraque. Por pouco, muito pouco mesmo, não completou sua obra com um ataque ao Irã.

Na ocasião valia, para as relações internacionais, a máxima de amigos incondicionais dos EUA -ou seja. seguidores da política de Bush – ou inimigos dos americanos. Todos os motivos – e qualquer boa mentira -. desde a destruição de supostos estoques de armas de destruição em massa até a imposição de políticas de democratização forçada de ditaduras do Oriente Médio, serviam para tomar o “mundo um lugar mais seguro”. Ao longo da Administração Bush. no entanto, os ataques terroristas, de tipo jihadista. aumentaram em número e em ousadia. Madri. Londres. Marrakesh. Bali. Mumbai e Karachi e outras arandes cidades foram atingidas. Dezenas de pessoas foram seqüestradas e mortas.

Vítimas. No Iraque – onde temos alguns dados, mesmo que incertos – um número superior a 100 mil e inferior a 900 mil pessoas foram mortas e cerca de três milhões fugiram do país. Enquanto isso. os EUA e seus aliados perderam no país 4.787 militares e tiveram 11.191 homens gravemente feridos, a maioria de forma incapacitante. Algumas fontes autônomas julgam que em verdade o número de mortos nunca será exatamente conhecido. Fontes dos serviços de saúde iraquiana falam em outras 1.690.903 pessoas seriamente feridas (algumas com seqüelas permanentes devido aos armamentos usados pelos terroristas ou mísseis norte-americanos).

No Afeganistão, desde 2001 – mesmo com a derrocada do regime dos talibãs. que davam cobertura á Al-Qaeda – constituiu-se um regime corrupto, inseguro e liberticida. além de incapaz de controlar sequer 30 quilômetros em tomo de Cabul. a capital. Neste país. 2.564 militares da coalizão ocidental foram mortos em combates contra os talibãs e a Al-Qaeda (até julho de 2011). enquanto as operações militares dos EUA e da OTAN mataram 19.629 afegãos e feriram outros 48.644. Durante todo esse banho de sangue, os EUA. que estiveram por vezes próximo de capturar (ou matar) Bin Laden. falharam em seu compromisso. A maior parte dos fracassos americanos foi resultado do uso de tropas locais afegãs, da intromissão da inteligência paquistanesa e. depois de 2003. da divisão de meios entre o teatro de operações do Afeganistão e do Iraque.

A Al-Qaeda. duramente atingida em 2001/2002. pôde. então, reestruturar-se e criai’ franquias – a famosa “nebulosa” Al-Qaeda -. expandindo-se paia o Iraque, o noite da África, o Sudão, o Sahel (Niger. Mali e Tchad) e no Sudeste Asiático. Por um momento, entre 2007 e 2009. parecia que o terrorismo mujahidin estava em avanço. Como afirmou Thomas Ricks. correspondente americano no Pentágono, as guerras de Bush foram um “fiasco”.

Terrorismo e Guerra. O terrorismo, em sua acepção mais lata. enquanto uma ação violenta contra a população civil visando obrigar um governo a fazer ou deixar de fazer algo (implementação de políticas) é um ato vil e covarde. Muitas vezes, dada a desproporcionalidade de forças e/ou a crueldade da força superior ou potência dominante, a ação terrorista ganha foros de heroísmo. Com muita clareza. Karl Marx. na sua pouco conhecida correspondência com a revolucionária russa Vera Zasulich (1849-1919). comentando a prática terrorista dos anarquistas russos, sob a terrível ditadura do czar. condenou a ação terrorista como nefasta, inútil e cruel. Algumas entidades terroristas, visando á libertação nacional (mesmo que. sob vários aspectos, de forma muito discutível), como o ETA e o IRA. assumiram o terrorismo como forma dominante de ação. Nestes casos, entretanto, não houve atentados em massa, contra alvos civis desprotegidos. Estas entidades determinavam alvos que deveriam, em tese representar o “Estado” inimigo, tais como soldados, policiais, juizes e políticos.

Mesmo nestas condições as populações a serem “libertadas” não aceitaram de forma inequívoca a forma escolhida de luta – no mundo real as pessoas são gente como a gente, para além de suas funções, como o caso do jovem soldado Gilad Shalit. Em especial, a existência de um Estado de Direito – como na Espanha pós-Franco. ou na Alemanha Federal ao tempo do grupo Baader-Meinliof -desautorizava as ações terroristas. Em outro extremo, casos de levantes populares maciços – como as “Intifadas” palestinas ou os levantes nacionalistas na índia à época de Gandhi – foram denominados abusivamente de terroristas. O poder dominante nestas condições – britânicos ou Israel – usou de forca desproporcional, abusiva e de forma cruel, caracterizando terrorismo de Estado.

Em outras situações o Estado, não só superior por natureza – o detentor do monopólio da violência – e por relação em face dos movimentos sociais, agiu de forma a produzir o medo maciço na população civil, visando desmobilizar os protestos populares. Em várias destas ocasiões como em Amritsar (índia), em 1919. pelos britânicos: em Soweto (África do Sul) em 1976. ou Gaza em 2008 ou nas cidades sírias desde o início de 2011 estamos diante de uma atuação terrorista por parte do Estado constituído, que falta e agride a norma da “Responsabilidade de Proteger” como definida pela ONU (Resolução 1973. de 2011). Assim, vemos que a questão do(s) terrorismo(s) é complexa e abarca um amplo leque de ações e responsabilidades.

Mas no conjunto das análises existentes há um consenso de especialistas de que os meios investigativos são mais eficazes do que o uso extensivo de uma panóplia militarista. Em especial quando nos referimos ao terrorismo de pequenos grupos bem organizados, com finanças eficazes, inteligência estratégica e grande capacidade de proselitismo – o que denominamos “Estado-Rede” – o enfrentamento e o desmantelamento de tais redes não poderiam ser chamados de “guerra”. Potências importantes e democráticas, que historicamente enfrentaram o terrorismo – como a índia, a França ou a Alemanha – buscaram meios inteligentes, tais como controle de fluxos de capital, de material explosivo e de informações digitais paia pautai’ sua ação. o que resultou numa resposta justa e mais pacífica.

Em 2011. a morte de Bin Laden. no Afeganistão, em uma operação das forças especiais americanas, não abalou a atuação da rede Al-Qaeda. Na verdade, a emergência de grupos ainda mais radicais, como o ISIS ou o Califado Islâmico na Síria e Iraque, ameaça bem mais a busca de hegemonia da Al-Qaeda entre os diversos movimentos radicais islâmicos.