Guerrilha do Araguaia

A guerrilha do Araguaia foi um movimento armado desenvolvido pelo Partido Comunista do Brasil, PCdoB, na região da divisa entre os estados do Pará, Maranhão e Goiás (hoje Tocantins).

O movimento começou a ser organizado nos anos de 1966 e 1967, com a chegada dos primeiros militantes do PCdoB à região do sudeste do Pará e proximidades, com o objetivo de realizar projeto de “guerra popular prolongada”, inspirado na Revolução Chinesa.

Operações Militares contra a guerrilha do Araguaia

Os combates no Araguaia começariam em abril de 1972, seis anos depois da chegada dos primeiros militantes do PC do B, quando o Exército iniciou o ataque aos destacamentos guerrilheiros.

As Forças Armadas realizaram três campanhas militares e operações de inteligência na região, mobilizando cerca de 10 mil homens. No ano de 1972, foram feitos prisioneiros, mas, depois disso, a ordem do comando militar era “eliminar” todos os envolvidos.


“Casa Azul”, centro clandestino de tortura em Marabá-PA

Há registros de que guerrilheiros e camponeses presos foram levados com vida para base do Centro de Informações do Exército (CIE), em Marabá, conhecida como “Casa Azul”, para a base de Xambioá e outros campos de concentração de prisioneiros.

O saldo das operações militares de repressão na região do Araguaia foi de cerca de 70 pessoas desaparecidas entre militantes do PC do B e moradores da região.

Operações de Inteligência

 

Operações de Inteligência: Operação mesopotâmia

A operação Mesopotâmia, desencadeada pelo Exército entre 2 e 12 de agosto de 1971, foi comandada pelo General de Brigada Antônio Bandeira de Mello e contou com cerca de 40 agentes, pertencentes ao CIE, Comando Militar do Planalto, 11ª. Região Militar e 3ª. Brigada de Infantaria. Tinha como objetivo colher informações e prender militantes na divisa entre Pará, Maranhão e Goiás (hoje Tocantins).

Na operação, os agentes seguiram pistas que poderiam levar a militantes do PRT, da AP, da ALN, da VAR-Palmares e da Ala Vermelha naquela região.

Os agentes percorreram a região, aportando em cidades como Imperatriz, Lagoa Verde, Porto Franco, Tocantinópolis, Araguatins, Trombas e Buritis. Dezenas de militantes e simpatizantes (a maioria camponeses) foram presos. Entre eles, Epaminondas Gomes de Oliveira, militante do PRT, foi preso em sua casa, em Tocantinópolis, torturado e morto sob a tutela do Exército Brasileiro em Brasília. A CNV procedeu à exumação dos restos mortais de Epaminondas em 24 de setembro de 2013.

O trecho abaixo, do relatório da Operação Mesopotâmia, mostra como essa operação foi precursora das ações militares posteriores na região do Araguaia. Segundo o general Antônio Bandeira, a operação teria atingido plenamente seu objetivo, na medida em que desarticulou o “movimento subversivo em gestação na área”, “levantou dados que possibilitaram a identificação e prisão de subversivos em outros locais do País” e:

O relatório final da Operação Mesopotâmia contém referências ao militante Juca, residente em Porto Franco (MA). Juca é o apelido de João Carlos Haas Sobrinho, desaparecido no Araguaia, que trabalhou como médico e criou o primeiro hospital daquele município, entre 1967 e 1969, transferindo-se então para a região da guerrilha, não muito distante dali.

Dentre as recomendações constantes do relatório da operação Mesopotâmia, documento secreto de 1971 assinado pelo general Antônio Bandeira de Mello, destacam-se orientações para a realização de prisões arbitrárias:

PRIMEIRA CAMPANHA (ABRIL – MAIO 1972)

Iniciada nos primeiros dias de abril de 1972, a ação militar coordenada do Exército contra os militantes do PCdoB instalados na divisa entre Maranhão, Pará e Goiás (atual Tocantins) foi composta por dois mil homens pertencentes a várias unidades militares. Os militares instalaram em Marabá e Xambioá seus quartéis-generais, e de lá comandaram a operação por todo Baixo Araguaia.

O resultado deste primeiro ataque foi a morte de Bérgson Gurjão Farias e de dois camponeses suspeitos de colaborar com a guerrilha: Lourival Moura Paulino e Juarez Rodrigues Coelho. Foram também presos alguns guerrilheiros.

No primeiro confronto entre guerrilheiros e militares, em 8 de maio de 1972, foi morto o cabo Odílio Cruz e Rosa. As dificuldades enfrentadas pelos militares – condições climáticas, pouco conhecimento da região, despreparo para combate na selva – resultou no fracasso da primeira campanha contra a guerrilha.

 

Comandantes da 1ª campanha

Antônio Bandeira: Ficha Cadastro de Movimentações

Comandante de Tropa da 1ª campanha

Coronel Gilberto Airton ZENKER

Ouvido pela CNV em 7 de novembro de 2013, em Brasília, após ter obtido liminar em Habeas Corpus para permanecer calado. Reconheceu ter atuado na Seção de informações da 3a. Brigada de Infantaria Motorizada, em Brasília, a partir de 1972.

Permaneceu calado a maior parte do depoimento, sem fornecer detalhes sobre os questionamentos feitos, nem confirmar sua participação na repressão militar à Guerrilha do Araguaia.

Agente da Equipe Operacional de Interrogatório

Major Lício Augusto Ribeiro MACIEL

Embora tenha sido regularmente convocado e notificado, não compareceu à oitiva marcada pela CNV para o dia 12 de novembro de 2013 no Rio de Janeiro. Naquele dia, uma advogada compareceu atribuindo sua ausência ao fato de que o advogado que deveria acompanhá-lo estava em um júri. A oitiva foi remarcada para o dia seguinte, 13 de novembro, quando novamente o Major Lício Maciel não compareceu, nem apresentou qualquer justificativa. Será novamente convocado para prestar depoimento.

Lício Ribeiro Maciel: Ficha Cadastro de Movimentações

Agente da Equipe Operacional de Interrogatório

Coronel Aluísio MADRUGA de Moura e Souza

Ouvido pela CNV em 7 de novembro de 2013, em Brasília, após ter obtido liminar em Habeas Corpus para permanecer calado. Reconheceu ter ocupado posto na 3a. Brigada de Infantaria Motorizada, em Brasília, em 1972, assim como ter atuado no Araguaia durante o “período de infiltração” (Operação Sucuri), durante 6 meses em 1973. Permaneceu calado a maior parte do depoimento, sem fornecer detalhes sobre os questionamentos feitos.

Aluísio Madruga de Moura: Ficha Cadastro de Movimentações

Agente da Equipe Operacional de Interrogatório

Sargento João SANTA CRUZ Sacramento

Prestou depoimento à CNV em 19 de novembro de 2013, em Belém. Reconheceu ter atuado no Araguaia durante todas as fases do combate à Guerrilha do Araguaia, ficando na área de 1972 até 1975. No ano de 1972, foi comandante do Destacamento de São Geraldo do Araguaia. Descreveu a Casa Azul (em Marabá) e as bases de Xambioá e Bacaba”. Observou que “os paulistas não tinham armamento suficiente” e “nunca procuravam enfrentar o Exército”, mas sim “andavam correndo do Exército”.

Confirmou que houve abusos, tortura e detenção arbitrária contra a população local suspeita de apoiar os “paulistas”. Descreveu apenas uma prisão que testemunhou presencialmente, mas não soube informar o nome da pessoa. Informou que os presos ou mortos eram entregues às tropas na Casa Azul, e que depois disso, dizia-se que os mesmos “tinham sido levados a Brasília”.

Confirmou ter visto, capturadas e vivas, diversas pessoas, inclusive: Divino Ferrreira de Souza, Daniel Ribeiro Callado (inclusive reconheceu uma foto sua com ele, que foi recolhida na área em 1996 por Paulo Fonteles Filho), Antônio de Pádua (tendo inclusive feito incursões na zona com este), Maria Celia Correa, Hélio Luiz Navarro de Magalhães (estes são 4 dos 5 desaparecidos na ação penal contra Sebastião Curió), Dinalva Oliveira Teixeira, Sueli Yumiko Komaiana e Walquíria Afonso Costa. Por fim, informou que ficou sabendo que houve efetivamente uma Operação Limpeza comandada pelo Curió, e que “a chave para encontrar corpos ou restos mortais é o Curió”.

1ª CAMPANHA/2º ATAQUE(JUNHO – SETEMBRO 1972)

Chefe Operacional

Major Idyno SARDENBERG Filho

Ouvido pela CNV em 12 de novembro de 2013, reconheceu ter atuado no Araguaia como Comandante da Brigada Paraquedista. Confirmou que a ideia de combater em trajes civis, descaracterizados, foi sua, e aceita pelo General Milton Tavares após o fracasso das operações da primeira fase em 1972.

Braço direito do general Hugo Abreu, Sardenberg Filho destacou em seu depoimento à CNV que o comando dos combates na fase “decisiva” – outubro de 1973 ao fim de 1974 – ficou em Marabá, numa unidade improvisada pelo Centro de Informações do Exército (CIE), ligado ao gabinete do ministro do Exército Orlando Geisel. O órgão chefiado pelo general Milton Tavares era responsável direto pela custódia dos prisioneiros da guerrilha, que seriam posteriormente executados. “Nossa missão era combater a guerrilha. Se prendesse, era para entregar ao CIE. Então, entregávamos (os guerrilheiros) lá“.

Idyno Sardenberg Filho: Ficha Cadastro de Movimentações

Chefe Operacional

General Thaumaturgo Sotero Vaz

Fez cursos de guerra na selva, de 1962 a 1964, e atuou com instrutor na Escola das Américas, na Zona do Canal do Panamá. Atuou como paraquedista. Foi laureado em 1969 com a Medalha do Pacificador.

Foi instrutor no Forte do Leme e no Centro de Instrução em Guerra na Selva (CIGS), em Manaus.

Participou da repressão à Guerrilha do Araguaia, destacando-se no resgate do corpo do Cabo Odílio Rosa Filho. É acusado de torturar prisioneiros durante a repressão à guerrilha.

Thaumaturgo Sotero Vaz: Ficha Cadastro de Movimentações

A tortura segundo Thaumaturgo Sotero Vaz

(…)

JN – E o peso da tortura?

Vaz – Tem que aproveitar o momento psicológico da prisão. Nesse momento, se não for arrancada a informação, se o cara não abrir a boca, ele não vai falar nunca. A tortura só faz falar as pessoas fracas, porque o cara pode inventar para se livrar. E na selva, ele inventa também.

(Entrevista com Thaumaturgo Sotero Vaz, Jornal do Norte, 7 de maio de 1996)

Agente da Equipe Direta de Combate

General Álvaro de Souza PINHEIRO

Ouvido pela CNV em novembro de 2013, exaltou a atuação do Exército no “combate à subversão e ao terrorismo”. Reconheceu ter atuado, em 1972, quando foi ferido, e também posteriormente, no combate direto à guerrilha do Araguaia. Confirmou ter estado na região do Baixo Araguaia por 247 dias, inclusive na “fase decisiva“ dos combates.

Não forneceu detalhes sobre eventos específicos, à exceção da morte do Cabo Rosa. Referiu-se à participação do então Major Thaumaturgo Sotero Vaz nesse episódio, a quem se referiu como “meu irmão mais velho”.

Álvaro de Souza Pinheiro: Ficha Cadastro de Movimentações

Em depoimento ante a CNV o General Álvaro de Souza PINHEIRO ressaltou que, em combate na selva, “não existe tiro para ferir”, e que os militares a partir de 1964 estavam prontos para “matar pela Pátria”.

 

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